setembro 02, 2026
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De Moçambique ao ROL, Makala Sankara Anzurumi!

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Entre a tecnologia e a literatura, o novo colunista escreve à sombra do embondeiro sobre identidade e esperança.

Makala Sankara Anzurumi

Makala Sankara Anzurumi, natural de Tete, Moçambique, é escritor, cronista e profissional de Tecnologias de Informação. Licenciado em Informática, com habilitação para o ensino de Informática pela Universidade Licungo, é também mestre em Ação Humanitária e Desenvolvimento Sustentável.

A sua trajetória cruza tecnologia, educação, escrita e desenvolvimento, áreas que se encontram no seu percurso profissional e na sua forma de interpretar a realidade.

Olhar literário e causas sociais

Na escrita, dedica especial atenção às experiências humanas e às questões sociais, explorando temas como:

  • Deslocamento e pertença;

  • Identidade e memória;

  • Juventude, exclusão e esperança na África.

Tecnologia e o Futuro

Como articulista, escreve também sobre tecnologia, inovação e transformação digital, refletindo sobre o papel dessas áreas na educação, no desenvolvimento e na construção de sociedades mais inclusivas.

Makala inicia sua jornada ROLiana com o texto Quando o lar deixa de nos reconhecer, uma crônica reflexiva e tocante, pela qual aborda de forma profunda a complexidade da migração, do exílio e da construção da identidade.

Quando o lar deixa de nos reconhecer

Há pessoas que atravessam uma fronteira com uma mala na mão e um país inteiro escondido no peito.

Na bagagem vai quase sempre pouco: duas camisas, alguns documentos, uma fotografia dobrada tantas vezes que já conhece a marca dos dedos e, talvez, uma chave. A chave é importante. Quem parte leva-a porque, mesmo quando tudo indica o contrário, ainda guarda a ténue esperança de voltar.

Foi assim que muitos partiram: sem tempo para despedidas, sem o último abraço à porta, sem vizinhos reunidos a desejar boa viagem, sem uma fotografia que eternizasse aquele instante. Há partidas que acontecem depressa demais para serem chamadas de despedida. Há apenas o medo. E quando o medo avança, ninguém pergunta se estamos preparados — ele ensina-nos simplesmente a andar.

Do outro lado da fronteira começa uma vida fora dos planos. É preciso aprender tudo outra vez: onde comprar o pão, onde apanhar o chapa, como pedir ajuda, que palavras usar e como cumprimentar sem que a pronúncia denuncie a nossa origem distante. Aprende-se onde dormir, onde trabalhar e como explicar o próprio nome sem ter de contar a história inteira que o acompanha.

E surge aquela pergunta pequena, quase inocente, mas carregada do peso de uma vida:

De onde és?

No princípio, a resposta é simples. Dizemos o nome da cidade, o país, a terra que ficou para trás, como quem aponta para uma fotografia antiga e afirma:

É ali que eu pertenço.

Depois, o tempo corre.

Cinco anos. Dez anos.

Os filhos crescem. A língua transforma-se ligeiramente: o sotaque perde algumas palavras da infância e ganha os termos da terra que nos acolheu. Aprendemos as ruas e os caminhos; sabemos onde o chapa passa mais cheio, onde comprar o essencial e onde nos abrigar quando a chuva cai de repente. Aprendemos a reconhecer a manhã pelo cheiro e a tarde pela luz que se desdobra sobre os telhados.

Construímos amizades, arranjamos trabalho, amamos, casamos e temos filhos. Enterramos alguns dos nossos mortos e celebramos aniversários. Começamos a cruzar-nos com pessoas que já não perguntam de onde viemos, porque passaram a tratar-nos pelo nome.

Sem percebermos, criamos raízes.

Primeiro frágeis.

Depois profundas.

Até que, um dia, alguém volta a perguntar:

Mas tu és de onde?

A resposta já não cabe numa palavra.

Depois de tantos anos, há algo de nós que permaneceu naquele lugar distante e algo que nasceu neste novo chão.

Se dizemos onde nascemos, ouvimos:

Ah, então és estrangeiro.

Se dizemos onde vivemos, respondem:

Não. Tu não és daqui.

Ficamos suspensos entre duas respostas.

É um lugar sem nome, onde carregamos duas terras no peito, mas nenhuma nos reconhece por completo.

Talvez a maior dor do exílio não seja perder uma casa, mas perder a certeza de que alguma casa ainda nos pertence.

O exílio não termina quando atravessamos a fronteira.

Ele continua.

Continua quando precisamos de justificar a nossa existência, quando o nosso nome é pronunciado como algo estranho ou quando os nossos filhos, nascidos e criados nestas mesmas ruas de Maputo, Nampula ou Pemba, continuam a ouvir a mesma interrogação:

Vocês são de onde?

Como se o nascimento dos filhos tivesse de responder pelos passos dos pais.

Como se uma fronteira pudesse atravessar gerações.

Contudo, há memórias que nenhuma fronteira consegue travar.

A memória não pede passaporte.

Basta a chuva, um aroma, uma música ou uma palavra dita de certa forma para que o presente desapareça por alguns segundos.

Regressa a rua da infância.

Regressa a voz da mãe.

Regressa a casa antiga.

Regressa a voz de quem já morreu.

O corpo pode estar numa rua de Moçambique, mas a memória viaja para longe sem autorização, sem fronteira e sem posto de controlo.

Existe, porém, outra fronteira invisível.

Não surge nos mapas, não tem bandeira nem exige documentos.

Habita dentro das pessoas.

É a barreira que se ergue quando se diz:

Eles são estrangeiros.

Como se a nacionalidade resumisse uma vida.

Como se um documento pudesse medir a dimensão de uma perda.

Como se o lugar onde uma pessoa nasceu fosse mais importante do que o lugar onde aprendeu a amar, a trabalhar, a criar os filhos e a sonhar.

Talvez precisemos de reaprender a palavra lar.

Lar talvez não seja apenas a terra onde nascemos.

Talvez seja também o lugar onde conseguimos continuar.

Onde alguém conhece o nosso nome.

Onde os nossos filhos aprendem a andar.

Onde penduramos uma fotografia na parede.

Onde sabemos qual caminho tomar quando a tarde começa a cair.

Onde alguém pergunta por nós quando faltamos.

Onde a nossa ausência é finalmente sentida.

Talvez lar seja isso:

um espaço que, gradualmente, deixa de nos tratar como passageiros.

Quando vemos alguém chegar com uma mala pequena e um olhar maior do que a estrada percorrida, a bagagem pode vir quase vazia, mas ninguém divisa o que vai no peito.

Ali estão os mortos.

As fotografias.

As vozes.

As ruas.

Os medos.

As saudades.

E a angústia de já não saber onde pertence.

Criar raízes num novo chão não é trair as origens.

É sobreviver.

É continuar.

É permitir que a vida recomece.

O lar começa num gesto simples.

Quando pousamos a mala, sem pressa nem medo, e percebemos que não precisamos de pedir desculpa por existir.

É quando escutamos a palavra:

Fica.

E simplesmente ficamos.

Não porque esquecemos a terra natal.

Não porque a saudade desapareceu.

Mas porque compreendemos que há raízes que não crescem onde nascemos.

Crescem onde a vida nos permite continuar.

Makala Sankara Anzurumi

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Sergio Diniz da Costa
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2 thoughts on “De Moçambique ao ROL, Makala Sankara Anzurumi!

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