Clayton Alexandre Zocarato desvenda as pequenas mentiras cotidianas e o abismo de um homem diante da própria consciência.

Naquela manhã, o homem acordou antes que o despertador tocasse. Não havia motivo para isso. O corpo simplesmente abandonara o sono como quem abandona uma cidade condenada.
Durante alguns segundos permaneceu imóvel, olhando para o teto, tentando descobrir se havia alguma diferença entre acordar e continuar dormindo. O teto estava ali, branco, indiferente, perfeitamente inútil. Uma pequena rachadura atravessava a pintura e terminava exatamente sobre sua cabeça.
Pensou que talvez aquela rachadura fosse a única coisa verdadeiramente honesta naquele quarto. Ela não prometia nada. Não escondia sua existência. Não procurava justificar-se.
Levantou-se lentamente. O chão estava frio. Caminhou até o banheiro e observou o próprio rosto no espelho. Não reconheceu imediatamente aquele homem. Havia olhos, barba, pele, rugas discretas e uma expressão que parecia pertencer a alguém que já havia desistido de esperar alguma coisa. Aproximou o rosto do espelho. Durante alguns instantes teve a impressão de que seu reflexo respirava depois dele. Recuou. Piscou. O reflexo continuou imóvel por uma fração de segundo antes de imitá-lo. Sorriu involuntariamente. O outro não sorriu.
Naquele instante compreendeu uma coisa que não conseguiu formular: talvez nunca tivesse sido o homem diante do espelho. Talvez tivesse sido apenas o reflexo de alguma coisa que se recusava a existir.
Preparou café. A água ferveu. O ruído da chaleira ocupou a cozinha com uma espécie de alegria mecânica. Colocou açúcar na xícara, mexeu lentamente e observou o líquido escuro girar. Pensou que a vida talvez fosse aquilo: uma substância amarga que alguém insistia em adoçar para suportá-la. O problema era que, depois de algum tempo, até o açúcar se dissolvia e deixava apenas o gosto original.
Saiu para trabalhar.
‘ Na rua, as pessoas caminhavam depressa. Todas pareciam saber para onde estavam indo. Ele desconfiava disso. Talvez ninguém soubesse. Talvez a pressa fosse apenas uma forma socialmente aceita de esconder o medo.
Os homens carregavam pastas, as mulheres carregavam bolsas, crianças carregavam mochilas maiores do que seus corpos. Os automóveis avançavam uns contra os outros como animais treinados para disputar alguns segundos de existência.
Parou diante de uma faixa de pedestres. Uma senhora ao seu lado segurava duas sacolas de supermercado. Ela respirava com dificuldade. Olhou para ele e perguntou se aquele ônibus passava pelo centro. Ele respondeu que sim, embora não tivesse certeza.
A mulher agradeceu.
Foi embora.
Ele continuou parado.
Pensou que talvez toda relação humana fosse construída sobre pequenas mentiras necessárias. Ela acreditara nele. Ele acreditara que precisava responder alguma coisa. Nenhum dos dois sabia a verdade. Ainda assim, por alguns segundos, tinham dividido uma certeza falsa. Talvez fosse isso que as pessoas chamavam de convivência.
No trabalho, cumprimentou os colegas. Sentou-se diante do computador.
A tela acendeu e pediu uma senha. Digitou. O sistema carregou lentamente. Na parte superior aparecia seu nome completo, seguido de um número de identificação. Ficou olhando para aquilo durante muito tempo.
Seu nome parecia menor que o número.
O número parecia mais importante que seu rosto.
Sentiu uma estranha vontade de rir.
Havia passado anos tentando construir uma identidade e agora descobria que bastavam alguns algarismos para substituí-la.
Abriu os arquivos. Respondeu mensagens. Preencheu formulários. Conferiu documentos. O mundo continuava funcionando sem precisar de sua presença interior. Isso o incomodou mais do que deveria. Percebeu que poderia desaparecer naquele instante e, provavelmente, algumas pessoas só perceberiam depois de algumas horas. Outras depois de alguns dias. Algumas talvez nunca percebessem.
O pensamento não o entristeceu.
Pior.
O pensamento lhe pareceu lógico.
Durante o intervalo, foi até a janela. Lá embaixo, centenas de pessoas atravessavam a rua. Observou uma criança correndo atrás de um pombo. O animal levantou voo. A criança parou e riu.
Ele ficou olhando.
Havia uma crueldade naquela cena.
A criança ainda acreditava que correr atrás das coisas era suficiente para alcançá-las.
Ele já sabia que não era.
Talvez crescer fosse exatamente isso: descobrir lentamente a distância entre o desejo e aquilo que o mundo permite. Primeiro desejamos brinquedos. Depois pessoas. Depois reconhecimento. Depois dinheiro. Depois tranquilidade. Finalmente desejamos apenas não desejar mais nada.
E mesmo isso nos é negado.
À tarde, recebeu uma ligação de sua mãe. Ela perguntou se ele estava bem. Respondeu que sim.
Outra mentira.
Ela perguntou se havia comido.
Disse que sim.
Outra.
Perguntou quando iria visitá-la.
Disse que no domingo.
Não sabia se iria.
Desligou.
Ficou olhando para o telefone.
A culpa apareceu, mas não como arrependimento. Era uma culpa antiga, quase doméstica, como um móvel esquecido dentro da consciência. Pensou na mãe envelhecendo. Pensou no pai morto. Pensou nas fotografias guardadas em caixas. Pensou nas pessoas que amamos apenas depois que percebemos que não poderemos mais conversar com elas.
Talvez amar fosse isso: assinar antecipadamente um contrato de sofrimento.
Quanto mais amamos alguém, mais garantimos a nós mesmos uma futura ausência.
Essa ideia lhe pareceu terrível.
Depois lhe pareceu verdadeira.
Ao sair do trabalho, caminhou sem destino. A cidade começava a acender suas luzes. As vitrines exibiam roupas caras, relógios, aparelhos eletrônicos, objetos que prometiam melhorar a existência. Entrou em uma loja e observou um relógio de pulso. Era bonito. Custava mais do que seu salário mensal.
O vendedor aproximou-se.
— Posso ajudá-lo?
Ele olhou para o relógio.
— Quanto tempo ele dura?
O vendedor sorriu, sem entender.
— É um excelente relógio. Tem garantia.
— Não perguntei sobre a garantia.
O vendedor ficou em silêncio.
— Perguntei quanto tempo ele dura.
— Muitos anos.
O homem agradeceu e saiu.
Na calçada, percebeu que não queria comprar o relógio. Queria comprar a sensação de que o tempo pudesse ser possuído.
Não podia.
Ninguém podia.
O tempo era o único proprietário de todos.
Continuou andando.
Entrou em um bar quase vazio. Sentou-se no fundo. Pediu uma bebida. O homem atrás do balcão serviu sem perguntar nada. Aquilo lhe agradou. Havia uma espécie de delicadeza no silêncio de desconhecidos.
Um homem mais velho estava sentado próximo à porta lendo um jornal. De vez em quando franzia a testa. Depois dobrava a página. Depois voltava a ler.
Ele perguntou:
— O senhor encontra alguma coisa importante aí?
O velho levantou os olhos.
— Nada importante.
— Então por que continua lendo?
O velho pensou.
— Porque preciso ocupar o tempo.
O homem sorriu.
— E se o tempo não precisasse ser ocupado?
O velho dobrou o jornal.
— Então teríamos de descobrir o que fazer com nós mesmos.
Nenhum dos dois falou durante alguns minutos.
Depois o velho voltou ao jornal.
Aquela frase permaneceu dentro dele.
Talvez o maior medo humano não fosse a morte.
Talvez fosse o intervalo.
O instante em que não houvesse mais distrações suficientes para impedir alguém de encontrar a própria consciência.
Pagou a conta e voltou para casa.
No caminho, começou a chover.
Não procurou abrigo.
Andou lentamente enquanto a água escorria pelo rosto. Algumas pessoas corriam para debaixo das marquises. Ele continuou.
A chuva não o incomodava.
Havia algo quase reconfortante em ser molhado por uma coisa que não tinha intenção alguma.
Chegou ao prédio.
O elevador estava parado no quinto andar.
Apertou o botão.
Esperou.
Nada.
Subiu pelas escadas.
No terceiro andar ouviu uma televisão ligada atrás de uma porta. Alguém discutia sobre política. No quarto, uma criança chorava. No quinto, um casal discutia.
No sexto, silêncio.
Parou diante da própria porta.
Antes de abrir, ouviu alguém atrás dele.
Virou-se.
Não havia ninguém.
Olhou novamente.
No corredor vazio, uma segunda porta aparecera onde antes havia apenas uma parede.
A porta era antiga, de madeira escura.
Havia uma placa pequena.
Nela estava escrito:
CONTRATO DE PERMANÊNCIA COM O NADA.
Ele ficou olhando.
Pensou que aquilo fosse uma alucinação.
Estendeu a mão.
A maçaneta estava fria.
Abriu.
Do outro lado havia o mesmo corredor.
Exatamente o mesmo.
Mas não havia portas.
Apenas uma extensão interminável de paredes brancas.
Entrou.
A porta desapareceu atrás dele.
Continuou caminhando.
Não havia chão visível, mas seus pés tocavam alguma superfície. Não havia teto, mas não sentia o céu. Não havia vento, mas sua roupa se movia.
Depois de algum tempo encontrou uma mesa.
Sobre ela havia, um folha de papel.
Sentou-se.
Leu:
“Você deseja permanecer?”
Abaixo havia duas opções.
SIM.
NÃO.
Ele ficou olhando.
Parecia uma pergunta simples.
Não era.
Se respondesse sim, permaneceria.
Se respondesse não, o que aconteceria?
Procurou uma terceira opção.
Não havia.
Pensou em tudo aquilo que havia vivido. Os trabalhos. As conversas. Os amores interrompidos. As pequenas alegrias. Os fracassos. As esperanças que morreram antes de se transformarem em alguma coisa concreta.
Pensou na mãe.
Pensou na criança correndo atrás do pombo.
Pensou no velho lendo jornal.
Pensou no relógio.
Pensou no espelho.
Pensou na rachadura do teto.
Talvez existir fosse sempre escolher entre duas formas de perda.
Escolheu SIM.
A folha desapareceu.
Outra surgiu.
“Você aceita permanecer sem promessa de sentido?”
Ele respirou profundamente.
A pergunta lhe pareceu quase ofensiva.
Sentido?
Durante anos procurara sentido como quem procura uma casa. Talvez tivesse imaginado que em algum lugar existisse uma resposta esperando por ele. Uma estrutura secreta organizando tudo. Uma razão escondida atrás das coisas.
Mas talvez não houvesse nada.
Talvez o universo não fosse um livro.
Talvez fosse apenas uma página em branco onde criaturas desesperadas escreviam justificativas para não enlouquecer.
Pegou a caneta.
Escreveu:
ACEITO.
A folha desapareceu.
Outra apareceu.
“Você aceita que nenhuma escolha sua seja capaz de derrotar a morte?”
Ele respondeu:
SIM.
“Você aceita que aqueles que ama irão desaparecer?”
SIM.
“Você aceita que também será esquecido?”
Demorou.
Depois escreveu:
SIM.
A sala ficou escura.
Uma voz perguntou:
— Então por que deseja permanecer?
Ele não respondeu.
A voz insistiu:
— Por quê?
Ele tentou encontrar uma resposta.
Não encontrou.
Talvez permanecesse porque não sabia partir.
Talvez a vida não fosse vontade de existir, mas incapacidade de desaparecer.
Lembrou-se de uma ideia que havia lido muitos anos antes: o sofrimento nasce porque desejamos aquilo que o mundo não tem obrigação alguma de nos oferecer. Outra lembrança surgiu: a existência não vinha acompanhada de instruções.
Depois outra: somos lançados no mundo e obrigados a escolher mesmo quando nenhuma escolha parece boa. E uma última ideia, ainda mais terrível, apareceu dentro dele: talvez a liberdade fosse apenas o nome elegante que damos à nossa condenação de escolher.
A voz perguntou:
— Você ainda quer permanecer?
Ele respondeu:
— Não sei.
Pela primeira vez, a voz pareceu satisfeita.
— Finalmente.
As paredes começaram a desaparecer.
O corredor transformou-se no quarto de sua casa.
Ele estava deitado na cama.
O despertador tocava.
A luz da manhã atravessava a janela.
Levantou-se.
Foi ao banheiro.
Olhou para o espelho.
O reflexo sorria.
Dessa vez, ele não.
A rachadura continuava no teto.
O café estava sobre a mesa.
O telefone tocou.
Era sua mãe.
Ele atendeu.
— Filho?
Ficou em silêncio.
— Você está aí?
— Estou.
— Você vem domingo?
Olhou para a janela.
A cidade estava começando novamente.
— Venho.
Desligou.
Foi até a cozinha.
Preparou café.
Sentou-se.
Durante alguns minutos, permaneceu olhando para a xícara.
Depois percebeu alguma coisa escrita em sua mão.
Não se lembrava de ter escrito.
Era uma frase curta:
“Permanecer também é uma forma de morrer.”
Esfregou a pele.
A frase não saiu.
Lavou as mãos.
Continuou ali.
Naquele momento compreendeu que o contrato nunca havia sido assinado naquela sala impossível.
Ele vinha sendo assinado todos os dias, silenciosamente, através de pequenas concessões: acordar quando não queria, trabalhar quando não acreditava, sorrir quando estava vazio, amar sabendo que perderia, esperar sabendo que a espera também envelhecia.
O contrato era a própria rotina.
O nada não precisava buscá-lo.
O nada já estava dentro de tudo.
Estava no café que esfriava.
No telefone que parava de tocar.
Na cadeira vazia.
Na fotografia de alguém morto.
No emprego que consumia anos.
Nas palavras que não foram ditas.
Nas palavras que foram ditas tarde demais.
No corpo que envelhecia enquanto a pessoa continuava fingindo ser a mesma.
Levantou-se.
Foi até a porta.
Antes de sair, olhou uma última vez para o espelho.
Dessa vez, o reflexo não o acompanhou.
Ficou parado.
Ele abriu a porta.
O reflexo ficou parado.
Desceu as escadas.
No terceiro andar, ouviu uma televisão.
No quarto, uma criança chorava.
No quinto, um casal discutia.
No sexto, silêncio.
Saiu para a rua.
A senhora das sacolas estava no ponto de ônibus.
Ela olhou para ele.
— Esse ônibus passa pelo centro?
Ele hesitou.
Dessa vez, respondeu:
— Não sei.
Ela sorriu.
— Tudo bem.
O ônibus chegou.
Ela entrou.
Ele ficou.
A cidade continuou.
Os carros passaram.
As pessoas caminharam.
As lojas abriram.
Os relógios avançaram.
E, em algum lugar invisível entre um segundo e outro, alguém assinou novamente o contrato.
Sem testemunhas.
Sem promessa.
Sem Deus.
Sem sentido.
Apenas a permanência.
E o nada, paciente, permaneceu esperando.
Clayton Alexandre Zocarato
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Naural de São Paulo, Capital, na área acadêmica possui graduação em Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista Unicep – São Carlos (SP), graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano – Ceuclar – Campus de São José do Rio Preto (SP), Técnico em Comércio Exterior pela Faculdades Eficaz – Coronel Fabriciano (MG) e Especialista em Medina y Arte com ênfase em Gilles Deleuze e Equizoanálise onde é também pesquisador do Centro de Medicina y Arte de Rosário Argentina. Na área social é analista político. E, na área literária, poeta, contista, compositor, ensaísta, crítico social e literário e Analista Político.



Clayton, seu conto é uma obra-prima do existencialismo! Lendo-o, parece que leio Franz Kafka e Fernando Pessoa, martelando a burocracia da vida, a perda de identidade e, talvez, o mais trágico: o vazio cotidiano.
E o final enigmático lembrou meu conto ‘O Estranho’, o que vai fazer co m que alguns leitores – como aconteceu comigo – fiquem odiando você! rs.rs.