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Artigo de Ricardo Hirata Ferreira: 'O gay a margem do lugar. O preconceito no movimento da vida'

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O GAY A MARGEM DO LUGAR. O PRECONCEITO NO MOVIMENTO DA VIDA.

 

Ricardo Hirata Ferreira
Ricardo Hirata Ferreira

Um dos principais problemas que afetam o mundo e o ser é o processo de exclusão perversa. A grande questão é como lidar com ela. Uma pista é estar disposto a compreender o grau de pertencimento e de deslocamento (na idéia de deteriorização humana forçada/forjada) nos diferentes lugares. Este texto, que é apenas um momento carregado de intensidade, tem como pretensão pensar o sujeito gay nos espaços vividos, ou seja, nos espaços onde a vida se realiza. O primeiro espaço vivido ou lugar em que se encontra é o seu próprio corpo. E aqui se considera o homem gay. Logo de início se esta pessoa é identificada com o sexo biológico masculino já é intimado a ser homem. É carimbado com um nome que corresponde ao seu sexo biológico. Suas roupas e o que se espera dele, por exemplo, são determinadas pela família ou por outra instituição que o cria e o educa. A cor azul é marca expressiva desta condição. É ensinado a se portar como um menino. A criança não cabe nenhuma possibilidade de escolha, até pela falta de consciência ampliada de sua existência.

A instituição em qual nasce e cresce lhe impõe ações que correspondam às regras já existentes e consideradas normais de acordo com a cultura e a realidade vigente. Já lhe é embutido o papel que deve desempenhar na sociedade. O gay posteriormente pode perguntar se de fato é um homem? Parte-se do pressuposto nesta breve análise que o território em questão é o Brasil, a sociedade é a capitalista de consumo e que a religião predominante é a cristã (e a tudo isto se leve em conta a divisão de classes sociais). É importante também ponderar que de maneira alguma a reflexão proposta deva ser generalizada e nem tomada como única verdade, uma vez que mesmo diante de um padrão de homogeneização as possibilidades de existências e experiências são diversas e inúmeras.

De todos os modos a tendência é exigir do gay um comportamento heteronormativo e comportado. Em hipótese alguma lhe é permitido ser mulher. Outro questionamento, no entanto, surge: mas o que é ser mulher? O lugar padrão lhe diz e o aponta que seja homem. A força, os gestos, o jeito de falar, de se sentar, de comer, de andar, de sentir e de pensar segue um perfil. Sabendo que nos dias de hoje ocorre um maior alargamento no que se refere aos costumes pré-estabelecidos. Todavia este alargamento é questionável e variável a depender da especificidade do lugar em que se habita. Pode-se sugerir que o gay possa ser outra coisa para além do que é ser homem ou mulher. Do definido ao indefinido tem-se uma gama de variedades e de nuances. Mesmo assim o que ainda impera é: a fila de meninos e a fila de meninas, o banheiro masculino e o banheiro feminino, a função de pai e a função de mãe, o garoto deve brincar de carrinho e a garota de boneca. O homem casa de terno e a mulher de vestido branco. Homens usam guarda chuva e as mulheres sombrinhas. Só existiu Adão e Eva, muito se houve este tipo de fala que expressa uma cultura forte e arraigada.

O lugar exige do sujeito gay uma identidade, este por sua vez entra em confronto com o lugar tentando propor outra identidade. Tudo que foge ao coletivo e ao padrão aparentemente heterossexual bem demarcado é radicalmente e/ou sutilmente colocado a margem, intimamente reprovado, não aceito. O príncipe e a princesa estão presentes no imaginário profundo, apesar do sucesso do vilão e da vilã. No cotidiano dos espaços públicos é perfeitamente aceito e comum casais heterossexuais andarem de mãos dadas e se beijarem. No teatro e no cinema os personagens privilegiados são os mocinhos e as mocinhas, sem entrar no mérito da ditadura da beleza do branco ocidental. O poder daqueles que detém e produzem o conhecimento, a técnica e a informação são variáveis importantes em todos os contextos históricos, mas do que nunca no atual. Neste sentido é que se esboçam quem e quais lugares estão incluídos, precariamente incluídos ou excluídos. Quais são os requisitos para pertencer mais ou menos neste ou naquele grupo? De que forma pessoas, lugares e países estão dentro, parcialmente dentro e são postos para fora (apagados) do mundo contemporâneo?

Em quais espaços o gay se sente a vontade? Pertencer a um lugar ou a um território é como estar em casa, ter um lar, se sentir abrigado, acolhido, protegido, entendido e integrado. O incomodo e a estranheza são suportáveis e fazem parte do viver. O processo de exclusão, de marginalização, de segregação, porém, é alimentado e intensificado também pelo avanço do preconceito visível e invisível dentro e fora dos diversos grupos e dos lugares. A indignação que surge, potencializa por sua vez a ampliação da visão de mundo no lugar dos espaços vividos e muitas vezes não percebidos.

 

Ricardo Hirata Ferreira

Doutor em Geografia Humana, FFLCH, USP.

Helio Rubens
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