Guilherme Machado
Mude o seu referencial – A lição que Sheldon Cooper e meu avô me deram sobre a dor


“Quem somente observa o vento nunca semeará,
e o que olha para as nuvens nunca segará.”
Eclesiastes 11:4
Há três anos, a data que marcava duas décadas sem meu avô mergulhou-me num oceano de memórias. A pandemia, com seu silêncio forçado, amplificou a dor. Foi preciso a insistência de amigos para eu buscar ajuda terapêutica.
Nesse processo, entendi algo crucial: eu carregava uma mentalidade de escassez como fortaleza. Vinda de uma família onde o trabalho duro foi a moeda de todas as conquistas, eu inconscientemente acreditava que minha vida não poderia ser “fácil” ou confortável. Para equilibrar a balança da perda, eu me agarrava à ideia de que o conforto material tinha um preço alto demais: a ausência de quem eu mais amava. A terapia me mostrou que aquela fortaleza era, na verdade, uma cela.
Uma conversa com uma amiga que perdeu a mãe na pandemia iluminou um vértice dessa dor. Ela não teve velório, nem enterro. E, em sua percepção, a falta do ritual a poupou de “cutucar a ferida”. Fiquei pensando no poder dos rituais para fechar ciclos. E essa reflexão me levou direto a uma das lições mais profundas que a televisão já me deu, escondida num episódio de The Big Bang Theory.
No ápice da série, os gênios Sheldon e Amy têm a obra de suas vidas — a “Teoria da Super Assimetria” e sua chance ao Nobel — completamente desmontada por um artigo acadêmico russo. A reação de Sheldon não é simples decepção; é luto em seu estado mais puro.
Ele passa pela negação e raiva (quebra um quadro, grita), pela depressão e paralisia (veste um pijama e afunda no sofá) e por uma crise de identidade radical (“Sobre o que mais estou enganado na vida?”, pergunta, enquanto prova um alimento que sempre odiou). Seus amigos tentam ajudar com conselhos de autoajuda (“é só uma derrota temporária”), mas a dor é profunda demais para esses placebos. O casal precisa de algo mais.
A sabedoria vem da mãe do amigo Leonard, uma psiquiatra, que diagnostica: “Pelo jeito ele pode estar de luto. Esse estado pode ser obtido por qualquer perda emocional”. Ela prescreve um ritual. Assim, os amigos organizam um “funeral” para a teoria falecida. Num momento de catarse, diante das folhas queimando numa banheira, Sheldon finalmente verbaliza a dor: “Ela descrevia um universo de uma forma nova e bela… Queria que fosse o universo em que vivemos”. Aquele ato simbólico de despedida foi a chave.
Mas a verdadeira reviravolta vem depois. Amy encontra uma fita antiga com um discurso do pai de Sheldon, um treinador de futebol americano, dirigindo-se ao seu time no intervalo, sendo humilhado no placar. Ele diz: “Se perdermos, precisam saber que isso não nos torna perdedores. Descobrimos quem somos e do que somos feitos, tanto com as derrotas quanto com o sucesso. Talvez até mais.”
Ao assistir, Sheldon tem um insight que redefine tudo. Ele sempre viu sua vida como o oposto da do pai (a genialidade da física versus o mundo esportivo comum). Agora, ele enxerga o paralelo: ambos enfrentaram reveses monumentais. A mesma metáfora do “jogo” que ele havia desdenhado antes, agora faz sentido total. Mais que isso, essa nova perspectiva — esse novo referencial — revela a solução científica: seu artigo russo rival não estava errado; eles apenas viam o problema de um ângulo diferente. A teoria não estava morta; estava incompleta.
Eis a lição universal que levo dali:
- O luto vai além da morte. É a perda de um sonho, de um projeto, de uma versão de nós mesmos ou do futuro que imaginávamos. É legítimo.
- Os rituais curam. Seja um funeral, uma carta queimada ou um café de despedida, dar concretude ao fim é um passo necessário para recomeçar.
- As respostas geralmente já estão conosco. A sabedoria que Sheldon precisava não veio de um novo conceito, mas de uma memória esquecida da própria história. Precisamos, muitas vezes, de ajuda (de amigos, de terapia) para encontrar e reinterpretar essas ‘fitas antigas’.
- Mudar o referencial transforma a realidade. Nós não podemos mudar o fato (a perda, o fracasso). Mas podemos mudar radicalmente o ponto de vista sobre ele. De ‘este é o fim’ para ‘este é um revés como outros que superei’. Essa mudança de perspectiva não é um pensamento mágico; é uma ferramenta cognitiva poderosa.
Machado de Assis já dizia que há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinhos, e outras que sorriem por saber que os espinhos têm rosas. O luto é a jornada dolorosa e íntima de aprender a ver as rosas novamente. É um processo, não um estado permanente.
Permita-se os rituais de despedida. Aceite a ajuda para encontrar suas próprias “fitas esquecidas”. E, principalmente, dê a si mesmo a permissão para mudar o referencial. Às vezes, a única coisa entre a paralisia e a solução é um novo ponto de vista — um novo ângulo a partir do qual a mesma história triste pode revelar um caminho adiante.
“Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-se-vos-á.” — Mateus 7:7
Guilherme Machado
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Guilherme Cesar Machado de Araujo, natural de Sorocaba (SP), 33, é graduando em Educação Física pela Fefiso (Faculdade de Educação Física de Sorocaba). Na área literária é escritor, filósofo e poeta. Escreve poesias desde 2002, tendo ingressado no site Recanto das Letras em 2011, visando compartilhar seus textos. Em 2012 foi um dos ganhadores do concurso de poesia promovido pelo Instituto Tatonetti, que homenageava os 402 anos da cidade de Itu.


Você escreve muito.
Boa tarde nobre escritora colega e colunista!
Muito bem? Muito mal? Muito extenso?
Não compreendi.