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Reflexões sobre o que é Literatura

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Elaine dos Santos: ‘Reflexões sobre o que é Literatura’

Elaine dos Santos
Elaine dos Santos
Imagem criada por IA do Bing – 05 de setembro de 2025,
às 10:12 PM

Professores graduados em Letras, mas que têm uma forte preferência pelos estudos literários, costumam debater-se entre o que é Literatura e o que não é Literatura.

Aliás, eis um dos grandes problemas diante alunos ‘novatos’ nos cursos de graduação é ensinar-lhes que escritos de autoajuda ou manuais de vendas não são exatamente o que eles devem considerar Literatura para ser estudada, analisada.

Recentemente, uma declaração da professora, pesquisadora, tradutora, Aurora Formoni Bernardini gerou controvérsias, visto que ela valoriza forma, conteúdo e novos horizontes no texto literário. De fato, a Literatura que agrada o nosso juízo estético (que é diferente de gosto estético, como estudiosos, como críticos, é aquela que consegue equilibrar forma e conteúdo.

Antes, porém, uma explicação: Hans Robert Jauss, em uma conferência na Alemanha, em 1967, acrescentou o leitor como parte da tríade que configura uma obra literária. Quanto mais uma pessoa lê, maior o seu horizonte de expectativas. Mas está em pauta o seu gosto literário.

Quem leu as grandes epopeias gregas, como ‘Ilíada‘, ‘Odisseia‘; ou ‘Eneida‘, marco fundacional da cultura romana ou ‘Os Lusíadas‘, em que Camões canta a saga dos grandes navegadores, lerá com maior criticidade um poema que se proponha ser épico.

Quando Bernardini aponta ‘novos horizontes’, é impossível não pensar em ‘Os sofrimentos do jovem Werther‘, de Goethe, publicado em 1774. Trata-se de um romance de um amor arrebatador, conflituoso, em que a vida só teria sentido se a amada estivesse com Werther. Traz um tom autobiográfico, intimista – que, neste caso, revela-se por cartas amorosas.

Dentro de um cenário que prenuncia a Primeira Revolução Industrial, a transição entre a racionalidade burguesa e o derramamento amoroso do Romantismo, Werther traz o homem em um embate individual, uma luta consigo mesmo, opondo-se, pois, sentimentalismo e industrialização.

Esse desencantamento social, diante de uma transformação ainda não concretizada plenamente: a Revolução Industrial, teria feito muitos jovens desistirem da vida do mesmo modo como Werther, a tal ponto que a obra foi proibida na Alemanha em anos posteriores.

Mais perto do nosso horizonte, penso que ficariam ‘Madame Bovary‘, de Flaubert; ‘O Primo Basílio‘, de Eça de Queiróz, e a nossa Capitu em ‘Dom Casmurro‘, de Machado de Assis, que introduzem o tema do adultério. Evidentemente, aqui, está toda uma crítica que rompe com o ideário do Romantismo até então em voga: “Casaram-se e foram felizes para sempre” (ou a empresa romântica em que sogro e genro estabelecem uma sociedade).

Mas conteúdo e forma? Na graduação, ao trabalhar com ‘Os Lusíadas’, os meus alunos impressionavam-se com a quantidade de versos compostos em métrica decassílaba (dez sílabas métricas). Refiro-me ao cuidado de um poeta que se debruça sobre os seus versos e seleciona palavras, sinônimos de palavras, sons, classes de palavras que lhe deem a rima rica, perfeita.

O Parnasianismo, que vigorou entre nós, no final do século XIX, foi exímio nesse cuidado com a forma, que acabou desconsiderando o conteúdo. Alberto de Oliveira é o exemplo mais bem acabado, uma vez que, em especial, Raimundo Correa traga um romantismo tardio.

O início do século XX, as transformações sociais e tecnológicas impressionaram o ser humano, sobretudo, europeu: carros, locomotivas, avião. Era preciso um texto mais ágil, tão veloz como a máquina que se apresentava. Rompeu-se com a forma.

O horror da Primeira Guerra Mundial também provocou esse rompimento. O avião, por exemplo, foi usado como arma de guerra. O Holocausto nazista, isto é, a matança de judeus na Alemanha, por sua vez, gerou a Literatura de Testemunho. Na verdade, em todas as situações em que o ser humano se vê defrontado com a violência e falta de liberdade, as letras são uma salvação. Prosperaram textos intimistas durante a pandemia.

Colocar-me-ia a favor de Aurora Formoni Bernardini: nem todos os textos serão sucesso, nem todos os textos serão eternos, alguns ficarão como boas lembranças. Falta-lhes literariedade (nos meus textos, identifico essa falta! Não é à toa que opto por crônica, quase ensaio).

É importante, no entanto, afirmar: Maria Firmina dos Reis produziu e publicou os seus textos no Brasil escravocrata, era mulher, era mestiça, era professora, usou um pseudônimo e, ainda assim, com a passagem dos anos, foi redescoberta, post-mortem, e é reconhecida como a primeira romancista do Romantismo no Brasil – não nos intimidemos. Permito-me parafrasear Camões: Os tempos mudam, as vontades mudam, tudo é composto por mudança. Quem sabe?

Elaine dos Santos

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4 thoughts on “Reflexões sobre o que é Literatura

    1. Acredito que é preciso pensar a Literatura sob a ótica dos professores e pesquisadores de Literatura; assim como é preciso pensar a pesquisa como um ato ético e responsável. Agradeço a sua leitura.

    1. Nós, professores de Literatura, dedicamo-nos durante anos a estudar o fenômeno literário, as suas características, as diferentes formas como a crítica literária fez a leitura de obras exponenciais, parece-me lícito que reflitamos sobre isso em um momento de transição das Letras e das Artes; alguns passarão, alguns passarinho. Obrigada por sua leitura.

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