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Ninguém entra duas vezes no mesmo rio

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Paulo Siuves: ‘Ninguém entra duas vezes no mesmo rio’

Paulo Siuves
Paulo Siuves
Imagem criada por IA do Gemini - 19 de fevereiro de 2026, às 16h25
Imagem criada por IA do Gemini – 19 de fevereiro de 2026, às 16h25

Saí de casa e vi um ônibus passar.
Não era só um ônibus.
Era uma cápsula do tempo.

Painel digital, porta automática, câmera interna, letreiro de LED.
Só o motor barulhento não mudou —
continua o nosso velho e bom busão.

Quase nada nele parecia com os que passavam quando eu era moleque.
Os de antes gemiam, tremiam, soltavam fumaça,
tinham bancos duros e janelas que se abriam à força.
Hoje tem ar-condicionado.

Quarenta anos de tecnologia entre um veículo e outro —
e, mesmo assim, a rua era a mesma.
O ponto era o mesmo.
O asfalto era o mesmo.
Só eu não era.

O que passa pela retina é presente.
O que passa pela memória é outra cidade.
Outro corpo.
Outro tempo.
Outro eu.

Há coisas que mudam fora da gente.
Outras mudam dentro.
E há aquelas que mudam a gente por dentro.

De tempo em tempo, alguém surge lá dentro.
Um outro eu — mais ranzinza, mais cansado.
Enquanto o anterior permanece ali,
em suspensão,
esperando para ver o que vai acontecer.

Ser arguido por alguém no espelho é rotina.
Um sujeito que me encara como se fosse testemunha de um crime que eu não lembro de ter cometido.
Um desaforo íntimo.
Um confronto sem plateia.
Às vezes penso: como é que eu ainda não dei um soco naquele sujeito?

Os que morreram dentro de mim não me incomodam.
O que fumava, por exemplo — já foi tarde.
Morreu no fim de 2009.
Esses eu enterrei em silêncio.
Esses descansam.

O problema são os outros.
Os que se recusam a morrer.
Os que voltam como requerentes da própria existência.
Os que batem à porta da consciência pedindo explicação.
Os que me confrontam toda vez que o espelho acende.

E a mão…
Essa mão que amanhece sem pedir licença.
Eu olho e não reconheço a pele.
Não é a pele que eu lembro.
Não tinha tantas rugas.
Não tinha tantas histórias.
Minha memória guarda uma mão lisa — de quinze, talvez vinte anos.
Não essa pele quase sexagenária que agora habito como se fosse de outro endereço.

Às vezes não parece envelhecimento.
Parece troca de identidade sem aviso prévio.
Como se eu tivesse sido atualizado sem ler os termos do contrato.

Acho que é exatamente isso:
não somos feitos de um tempo só.
Somos sobreposições.
Camadas, pessoas.
Versões em conflito.
Arquivos vivos.

E, como a cidade, a gente muda de pele sem pedir permissão à memória.
O corpo vira outro prédio.
O rosto vira fachada velha.
O olhar vira outra rua.
E a gente caminha dentro de si como quem visita um museu sem placas.

No fim, eu acho que não envelheci.
Só acordei num corpo que ainda estou aprendendo a habitar —
enquanto versões antigas de mim continuam andando alguns passos atrás,
me olhando, em silêncio,
como quem pergunta:
“foi isso que você fez com a vida que a gente sonhou?”


Paulo Siuves

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