Pietro Costa: ‘A fenomenologia do polegar em queda’


Olhos fixados no luminoso oráculo.
O polegar desliza, rito automático.
Teu filho andou pela primeira vez:
A vivência que não entrou no feed.
Sarcasmos prontos, cinismos em série,
piadas leves como a consciência.
Gritos e choros em silêncio digital:
não viraliza a falta de audiência.
Compra-se para esquecer o dia,
acumula-se o que não preenche.
Em casa, aquece-se o urgente,
congela-se o sentir: ego e agonia.
Executa-se a cretinice em escala industrial:
Se vota diferente, é inimigo visceral.
Se critica meu ídolo, é herege, insano.
Se crê fora do meu templo, não é humano.
A ampulheta implode, vazio profundo.
O tempo não passa, acumula feridas.
Preconceitos marcam a pele do mundo:
rugas precoces — civilização exaurida.
Merleau-Ponty já advertia a humanidade:
o corpo é campo sensível, não secundário.
Há um logos inscrito na carne,
uma gramática do sentir antes do discurso, do vernáculo.
Essência e existência soletram-se no cotidiano:
nos afetos negados, nos encontros adiados,
nos mitos que repetimos, em autoengano.
Cada vida é texto em curso:
ou ponte, ou abismo.
E o sentido, hoje,
exige menos conexão
e mais coragem de sentir.
Pietro Costa
- 📚 LABVERSO — Núcleo de Poéticas Experimentais - 7 de maio de 2026
- Atenção, verbonautas e barcófilos!!! - 23 de abril de 2026
- A fenomenologia do polegar em queda - 15 de abril de 2026

Natural de Brasília (DF), é escritor, poeta e Assessor Jurídico de 2ª Instância do MPU (PGJM). Autor de 11 livros, ganhou projeção internacional com O Barco e o Verbo: 10 Anos de Travessia Literária, lançado na London Book Fair 2026, onde recebeu o título Royal Writer of the Year. Seu livro Requintes de Sensibilidade (2025) foi lançado no Salão do Livro de Genebra 2026, ampliando o alcance de sua poesia no cenário europeu. Vencedor do Troféu Clarice Lispector 2024 (SolRidente) e do 1º Concurso Mágico de Oz 2025 (A Matemática da Presença), integrou a delegação brasileira no Festival Internacional de Poesia de Bucareste (2025). Professor de Escrita Criativa, Idealizador e Facilitador do LabVerso: Núcleo de Poéticas Experimentais e Mentoria Literária de Alta Formação, Doutor Honoris Causa Mult., soma mais de 400 participações em coletâneas literárias.


Pietro, seu poema é uma radiografia que mostra que o mundo moderno é por demais de virtual, e de menos virtuoso. A alienação digital, a superficialidade das relações e perda da vivência sensorial, como forma de viver e se mostrar ao mundo, está rebaixando os seres humanos na escala evolutiva espiritual.
Que saudade do tempo em que o ponteiro do relógio andava em cadência lenta, proporcionando – a quem tinha alma de sentir, evidentemente – a ‘degustação’ da vida!