maio 08, 2026
Entre estilhaço e claridade
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J. H. Martins
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Entre estilhaço e claridade

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Ella Dominici: ‘Entre estilhaço e claridade’

Ella Dominici
Ella Dominici
Imagem criada pela IA do Bing – 08 de maio de 2026,
às 9h15

A carne não é triste; é translúcida demais. Leu-se o mundo até que as páginas perderam peso e restou apenas o brilho nu entre uma palavra e outra, como se o sentido tivesse migrado para o intervalo. Algo chama — não o mar visível, mas o rumor que antecede a onda, a vibração que percorre o vidro antes da fratura.

 Há um cristal no centro do peito: não é pedra, é memória suspensa, luz coagida em forma. Quando a brisa o atravessa, não sopra — fende. E os fragmentos não caem; flutuam, cada estilhaço guardando um rosto incompleto, um gesto repetido, uma infância que ainda não terminou de acordar.

Não se foge da transparência; ela persegue. O navio é interno, feito de nervuras frágeis, e suas velas são silêncios estendidos sobre o abismo. Parte-se sem mover-se. O cristal, perplexo, não sabe se é ferida ou revelação. Mas quando a luz insiste — branca, impiedosa — compreende que não é o golpe que o quebra, e sim o excesso de claridade.

Então canta. Não som: refração. E no canto invisível do vidro algo se recompõe sem retornar ao que era. O mar não aparece; apenas pulsa dentro da transparência. E o coração, entre um estilhaço e outro, aprende a permanecer.

Ella Dominici

Rute Ella Dominici
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One thought on “Entre estilhaço e claridade

  1. Ella, a sua prosa poética é para quem tem alma de sentir e transcendência de análise textual, pois é um texto de tal profundidade, que é necessário o leitor mergulhar nela de ‘escafandro virtual’.

    Você fala da transitoriedade e fragilidade da vida terrena sinestesicamente, com a brisa, vibração e transparência.

    A vida, em suma, é breve e frágil, mas o coração, estoicamente, “entre um estilhaço e outro, aprende a permanecer”!

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