Ella Dominici: Conto ‘Amélia Moreau e a sombra’


Amélia Moreau escolheu a menor cabana porque o corpo já não comportava excessos.
Não era cansaço — era um pedido interno de depuração.
O chão de areia batida acolhia os pés como um reconhecimento antigo. A madeira guardava o calor do dia, o vidro devolvia o céu em fragmentos, como pensamentos que não se organizam de imediato. Ao redor, a grama rala insistia em existir, verde frágil, quase desistente. Amélia pensou que também vivia assim: por pequenas persistências silenciosas.
Sentou-se. O silêncio entrou nela antes mesmo de fechar a porta.
O corpo trazia marcas que não pediam tradução. Ombros tensos de contenções prolongadas, o ventre atento como quem pressente, a respiração curta — hábito de quem aprendeu a não ocupar demais o espaço do mundo. Escrevia poemas todos os dias. Vinham como ondas, densas, volumosas, impetuosas. Mas a espuma já não lhe bastava.
Amélia queria o fundo.
Queria a pressão que transforma.
O escuro vivo onde nada é decorativo.
Desejava escrever uma história que não fosse superfície. Um mergulho. Um relato de águas espessas, onde peixes não simbolizam — existem. Onde raias cortam o pensamento, crustáceos caminham sobre memórias esquecidas, golfinhos anunciam breves alegrias e baleias — antigas, vastas — atravessam o escuro como verdades que não pedem permissão.
Foi então que a Sombra se adensou.
A Sombra não chega. Acontece.
Era a parte dela que carregava chão. Aquela que media, que calculava, que via limites. A que fora convocada muitas vezes e quase sempre adiada. Agora, ali, entre madeira e vento, a Sombra tinha densidade.
— Vais escrever rápido — disse Amélia, sentindo a garganta vibrar. — Porque quando escrevo, já passou. Não há histórias longas. Há travessias.
A Sombra apoiou-se na parede, como quem sustenta uma estrutura antiga.
— Então por que escrever, se tudo escorre?
Amélia levou a mão ao peito. O coração batia como mar fechado, sem margem visível.
— Porque o que se inventa existe. Criar é dar corpo ao que não teve permissão de nascer. Não há realidade fixa — há memória do querer e do não querer. E ambas têm peso.
A tarde escorria lenta. O vento trazia cheiro de sal, de fruta madura, de um tempo anterior às nomeações. Amélia sentia, como um nó suave, a presença de vínculos densos — afetos profundos, responsabilidades vivas, laços que não se rompem, mas também não explicam tudo. Eram reais, eram amados, mas não esgotavam o que nela pulsava.
Havia uma fome que não se alimentava de harmonia organizada.
As presenças humanas de sua vida surgiam como figuras adaptadas ao possível, ajustadas ao aceitável. Apenas ela insistia em escutar o que desalinha. Apenas ela interrogava o que todos chamavam de normal.
— Não achas estranho — disse a Sombra — caminhar contra o que chamam de vida?
Amélia sentiu a areia fria sob os pés, como um lembrete.
— O que chamam de vida é sobrevivência com calendário. Eu quero existir com risco. Quero sentir até doer certo.
A Sombra não respondeu. Apenas ficou.
E ficar, ali, já era um gesto de aceitação.
Amélia abriu o caderno. A mão tremia, mas era um tremor fértil. Lá fora, o mar respirava fundo, como quem reconhece outra criatura marinha.
Ela escreveu.
Não para ser lida.
Não para permanecer.
Escreveu como quem mergulha sem corda, sabendo que algumas profundezas não devolvem o mesmo corpo — mas devolvem algo mais raro:
a verdade em estado líquido.
E isso, pensou Amélia, já era uma forma suficiente de existir.
Ella Dominici
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Natural de São Paulo (SP), é endodontista por profissão e formada no curso superior de Língua e literatura francesa. Uma profissional que optou por uma ciência da área da saúde, mas que desde a infância se mostrava questionadora e talentosa na Arte da Escrita, suscitando da parte de um mestre visionário a afirmação de ela ser uma escritora nata, que deveria valorizar o dom que recebera. Atendendo ao conselho recebido, na maturidade Ella cumpre o vaticínio e lança o primeiro livro solo de poemas (Mar Germinal), rompendo com a escrita meramente contemplativa, abraçando fragmentos, incertezas e dualidades para escancarar oportunidades a si como ao outro. Dribla o autoritário tempo, flagra mazelas psicológicas em minúsculas e múltiplas impressões exteriores e internas. É membro da AMCL – Academia Mundial de Cultura e Acadêmica Internacional da FEBACLA. Coautora de várias antologias. Publica na Revista Internacional The Bard e se inscreveu no 8º Festival de Poetas de Lisboa, participando da antologia promovida pelo evento


Ella, considerando que sou leigo em psicanálise, o que vou escrever tem tudo pra ser uma interpretação completamente fora dessa disciplina, mas me parece que você, com um ‘escafandro’ metafórico, mergulhou profundamente no inconsciente, como um contraponto à vida cotidiana.
E a escrita, como um processo criativo, é, de fato, uma exposição, um desnudamento da alma!