maio 13, 2026
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Entrevista com o escritor e professor universitário romeno
Félix Nicolau

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“Um intelectual está aberto a um debate totalmente livre e pronuncia-se
contra a censura”. (Félix Nicolau)

Professor Felix Nicolau - Arquivo pessoal
Professor Felix Nicolau – Arquivo pessoal

Caros amigos do Jornal Cultural ROL, e´ com grande prazer que vos apresento Félix Nicolau, um erudito e uma das personalidades da literatura romena contemporânea, com uma carreira complexa e multifacetada que combina, com naturalidade, a criação literária, a reflexão crítica e a atividade académica. 

Licenciado em Filologia e Filosofia, obteve o título de Doutor em Filologia em 2003, com uma tese de literatura comparada. A sua estreia editorial ocorreu em 1996 com o livro de poesia Ascultând cerurile, publicado na revista Arca de Arad, marcando o início de uma atividade literária prolífica e diversificada. 

É membro da União dos Escritores da Romênia e colabora com numerosas revistas literárias e científicas, tanto nacionais como estrangeiras.  

Ao longo do tempo, Felix Nicolau publicou uma obra rica que inclui poesia (quatro volumes), prosa (dois romances) e ensaios e crítica literária (nove livros). 

No domínio da poesia, obras como Kamceatka, Time is Honey (2014), Bach, manele & kostel (2003), Salonul de invenții (2002) e Cucerirea râsului (1996) revelam um poeta preocupado com o jogo semântico, a ironia cultural e a expressão lúdica.

No que se refere à prosa, os romances Tandru și rece (2007) e Pe mâna femeilor (2011) são exemplos do seu interesse pela exploração das relações interpessoais e dos paradigmas socioculturais do espaço pós-moderno romeno. 

No domínio da crítica literária e da teoria cultural, Nicolau publicou vários volumes de ensaios e estudos que refletem profundas preocupações teóricas. Entre as suas obras de referência, destacam-se: Homo Imprudens (2006), Anticanonice (2009), Codul lui Eminescu (2010), Estetica umană: de la postmodernism la Facebook (2013) e os volumes de 2014: Cultural Communication: Approaches to Modernity and Postmodernity e Comunicare și creativitate. Interpretarea textului contemporan e Take the Floor. Professional Communication: Theoretical Contextualization. Mais recentemente, Nicolau publicou Istoria nucleară a culturii. Cuante hermeneutice (2021) e Știința minciunii responsabile. Tratat de embolii culturale (2024), no qual aborda temas atuais relacionados com a hermenêutica, a identidade e o discurso cultural na era digital.

Além da paixão pela escrita e pela crítica, Felix Nicolau é um professor universitário dedicado e respeitado. Leciona literatura, comunicação e estudos culturais em diversas instituições académicas, nomeadamente como professor convidado do Instituto da Língua Romena (ILR) na Universidade Complutense de Madrid e na Universidade de Granada, como professor na Universidade Técnica de Construções Civis de Bucareste, na Roménia, e como professor convidado na Universidade de Lund, na Suécia.

Além disso, é afiliado à Escola de Doutoramento em Filologia da Universidade “1 de Dezembro de 1918” de Alba Iulia, na Roménia, onde contribui para a formação de investigadores nas áreas da literatura e da comunicação.

A obra e a atividade de Felix Nicolau inserem-se nos debates contemporâneos sobre literatura e cultura, dado que o autor participa ativamente na vida jornalística e académica, tanto romena como internacional, colaborando com publicações como o Swedish Journal of Romanian Studies, a Littera Nova ou a Bucovina literară.

Através das suas abordagens teóricas, ensaísticas e criativas, Felix Nicolau procura conferir clareza e profundidade ao discurso literário, explorando simultaneamente as dimensões hermenêuticas, culturais e comunicativas da arte e da sociedade.

Rhea Cristina: Conhece e fala sete línguas estrangeiras: inglês, italiano, francês, espanhol, alemão, português e sueco. O que o levou a estudar português? O que representam para si o Brasil e a América do Sul em geral?

Felix Nicolau: Há muitos anos, frequentei cursos de língua e cultura portuguesas na embaixada do Brasil em Bucareste. Com certeza irei frequentar um novo curso num instituto para atualizar os meus conhecimentos da língua. Por isso, conheço melhor o português do Brasil, que, aliás, tem uma pronúncia mais clara. 

Sempre me interessei pela cultura de expressão portuguesa, devido à sua vastidão temporal e espacial. O Brasil e a América do Sul são um caldeirão de culturas que não se pode deixar de conhecer. E como nós, romenos, também usamos uma língua neolatina, seria uma pena não aceder ao original do que as culturas de expressão portuguesa têm para oferecer.

Rhea Cristina: O que significam para si as palavras «história», «identidade» e «memória individual e coletiva»? 

Felix Nicolau: São conceitos essenciais para o ser humano. Por exemplo, não basta uma pessoa falar com um certo grau de correção a língua portuguesa ou a língua romena para se poder dizer que é brasileira ou romena. A identidade, que inclui os tipos de memória, significa conhecer a história sem distorções, as tradições e a cultura em causa. Sem isso, ninguém pode assumir uma identidade específica. 

Pelo contrário, se um estrangeiro aprender bem essas coisas, então torna-se mais nativo do que um habitante local que não se esforça para desenvolver a sua identidade. Portanto, a identidade conquista-se, não é algo que se tenha por direito. É em vão que muitos se gabam de ter nascido num determinado lugar. Podiam ter nascido noutro qualquer lugar. 

A falta de pensamento crítico e os automatismos são pragas da humanidade que só podem ser curadas através da exposição à cultura autêntica. No entanto, isso está a tornar-se cada vez mais difícil, pois a educação está cada vez mais diluída. Especialmente para se obter o ser humano globalizado, o homem de plasticina.

Rhea Cristina: Durante os 50 anos de totalitarismo, a Europa de Leste produziu apenas cultura de propaganda? A cultura da Europa de Leste submeteu-se totalmente aos cânones da ideologia oficial? Que ensinamentos sobre os valores do ser humano nos legou essa cultura?

Felix Nicolau: …De modo algum. É verdade, porém, que apenas a cultura alinhada com o sistema comunista foi promovida. Além disso, era mesmo perigoso produzir cultura não alinhada. Muitos acabaram na prisão, foram mortos ou perderam o estatuto social por causa disso. Em suma, apenas os fanáticos, os idiotas e os oportunistas se submeteram aos cânones da cultura oficial. 

A verdadeira cultura, a não alinhada, revelou o lado absurdo, ou mesmo feroz, do mundo. Não existe uma cultura do Leste europeu, mas sim várias. Os romenos promovem criações com um toque folclórico, mas também o absurdo e as vanguardas. Os checos têm um sentido de humor ingênuo-absurdo no cinema. Os húngaros têm uma inclinação para o absurdo sofisticado e para uma visão romântica e misteriosa. E assim sucessivamente. São povos com matrizes culturais semelhantes, mas também diferentes. 

Daí os frequentes conflitos e a incapacidade de estabelecer uma aliança político-militar-econômica em toda a região. Isso diz muito sobre as diferenças.

Rhea Cristina: Num mundo com grandes mudanças geopolíticas, como o atual, qual é ou qual deveria ser o papel da cultura a nível mundial? Que importância tem a cultura europeia? E a literatura sul-americana? 

Felix Nicolau: A cultura tem, como sempre, um papel duplo: preservar identidades e tradições elevadas, não bárbaras, e construir pontes interculturais. Não é uma tarefa fácil e, infelizmente, muitos promotores culturais têm um domínio limitado da cultura, limitando-se a procurar um lugar confortável em diversas instituições e projetos. Além disso, há muitos projetos supostamente culturais, mas centrados em aspectos da moda e ideologizados que, na verdade, não contribuem em nada para a vida cultural. 

A literatura sul-americana tem um papel especial precisamente devido à cultura de onde provém. Como se sabe, esta literatura abordou, com meios estilísticos espetaculares, temas relacionados com a ditadura e o autoritarismo. Afinal, é isso que a literatura deve fazer: propor novas formas narrativas e desenvolver a humanidade, expondo temas e situações de forma desideologizada. Não impor uma única forma de leitura.

Rhea Cristina: Qual é, atualmente, o estatuto do escritor, filósofo e tradutor no espaço cultural europeu e mundial? 

Felix Nicolau: Existem diferenças significativas entre estas três figuras. O escritor tornou-se um pilar da sociedade do espetáculo e um crítico desta, apenas na medida em que não é movido pelo desejo de receber prêmios. Refiro-me aos escritores representativos, aqueles que são apoiados pelos sistemas. No entanto, também existem escritores livres que não se deixam condicionar pelas relações comerciais em busca do sucesso. 

Ultimamente, os filósofos representativos têm recuperado a vantagem perdida face aos escritores. Surgem filósofos-influenciadores que dão conselhos, sobretudo, sobre a felicidade. Quanto aos tradutores, tinham alcançado um certo nível de respeitabilidade, sobretudo sob a pressão dos estudos de tradução. No entanto, a explosão de programas baseados em inteligência artificial irá reduzir a sua contribuição. Ficarão muito poucos tradutores, que se dedicarão mais a aperfeiçoar as traduções feitas com IA. 

Porém, os escritores também começaram a criar textos de forma pós-algorítmica com a ajuda da IA, embora poucos o reconheçam. De qualquer forma, um artista define-se pela liberdade na sua arte. Enquanto o artista se preocupar em incorporar a correção política do momento no seu processo criativo, a sua arte estará morta a nível ontológico. Por mais prêmios que receba.

Rhea Christina: Que tipo de intelectual existe atualmente na Europa e na cultura sul-americana? Estão presentes na cena cultural mundial?

Felix Nicolau: Na minha opinião, um intelectual não é apenas um especialista ou um homem de cultura pago pelo Sistema. O intelectual é alguém que está genuinamente em busca da verdade, com espírito crítico, e que se esforça por acumular informação de tantos domínios quanto possível. Essa informação é depois integrada no seu sistema cultural com base em critérios de valor, e não em função de ofertas e oportunidades. 

Um intelectual está aberto a um debate totalmente livre e pronuncia-se contra a censura. Poderia dizer que uma pessoa amplamente aceite pelo Sistema e multipremiada não pode, de forma alguma, ser um intelectual. A função do intelectual consiste, acima de tudo, em lutar pela decência e pelos direitos, e não em alinhar com os diversos discursos do poder. Da mesma forma, um intelectual esforça-se por construir a sua cultura através de várias línguas estrangeiras. 

A verdade é que esta condição humana é extremamente rara e, na maioria dos casos, é marginalizada. A história mostra-nos que a espécie humana não gosta de jogos justos e baseados em regras. Desde sempre que os sistemas têm influenciado o resultado do jogo e da competição. O mundo poderia ter sido um paraíso para todos, mas está longe disso. 

O mito do robô que libertará o homem do trabalho e lhe permitirá dedicar-se à construção cultural não passa de um mito. A proliferação dos robôs empurra o homem verdadeiramente trabalhador, que não usufrui de diversos privilégios imerecidos, para fora do panorama, tornando-o inútil e dispensável. É uma perspetiva sombria, nada intelectual.

Rhea Cristina: Qual é a sua mensagem para a comunidade romena no Brasil e para a comunidade cultural brasileira?  

Felix Nicolau: Uma mensagem de coragem e abertura cultural, ou seja, de esforço intelectual contínuo, de acumulação e interpretação. Não nos limitemos à superfície das culturas; estudemos com energia durante toda a vida. Só assim as culturas podem permanecer verdadeiramente vivas e não se transformar em mecanismos festivos para a promoção de diversos funcionários. 

Lutem pela verdade e não se deixem levar apenas pelos influenciadores culturais. Procurem os verdadeiros sábios. Pensem, portanto, na vitória e na alegria.

Uma entrevista realizada por Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina. 

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