Alexandre Rurikovich Carvalho
‘Agosto e as três dimensões da minha vocação:
Filosofia, Patrimônio Histórico e História


Resumo
O presente artigo apresenta uma reflexão sobre três datas comemorativas do mês de agosto no Brasil: o Dia do Filósofo, celebrado em 16 de agosto; o Dia Nacional do Patrimônio Histórico, celebrado em 17 de agosto; e o Dia Nacional do Historiador, comemorado em 19 de agosto. Mais do que abordar a origem e a importância dessas efemérides, o texto estabelece relações entre essas áreas do conhecimento e a trajetória acadêmica e profissional do autor, que encontrou na Filosofia, no Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural e na História campos de estudo, pesquisa e atuação profundamente vinculados à sua identidade intelectual.
Discute-se o papel do filósofo como agente da reflexão crítica; do profissional dedicado ao patrimônio como responsável pela valorização, preservação e transmissão da memória cultural; e do historiador como pesquisador e intérprete das experiências humanas no tempo. O artigo defende que essas três áreas constituem dimensões complementares de uma mesma missão: pensar, preservar e compreender a trajetória da humanidade.
Palavras-chave: Filosofia; Patrimônio Histórico; História; Memória; Cultura; Preservação.
1 Introdução
O calendário é composto por datas que ultrapassam a simples função de marcar a passagem do tempo. Algumas efemérides possuem a capacidade de despertar reflexões sobre profissionais, acontecimentos, instituições e áreas do conhecimento que desempenham papel fundamental na construção da sociedade.
O mês de agosto apresenta, particularmente, três datas que possuem profundo significado para minha trajetória acadêmica e profissional: o dia 16 de agosto, tradicionalmente celebrado no Brasil como Dia do Filósofo; o dia 17 de agosto, dedicado ao Dia Nacional do Patrimônio Histórico; e o dia 19 de agosto, instituído como Dia Nacional do Historiador. O Dia Nacional do Patrimônio Histórico é celebrado desde 1998, em homenagem ao nascimento de Rodrigo Melo Franco de Andrade, primeiro presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Já o Dia Nacional do Historiador foi instituído pela Lei nº 12.130, de 17 de dezembro de 2009, em referência ao nascimento de Joaquim Nabuco, ocorrido em 19 de agosto de 1849.
A proximidade dessas três celebrações chama a atenção para a relação entre pensamento, memória e conhecimento histórico. A Filosofia estimula o ser humano a questionar, refletir e buscar compreender a realidade; o Patrimônio Histórico e Cultural permite preservar os testemunhos materiais e imateriais das sociedades; e a História procura investigar, interpretar e compreender as experiências humanas ao longo do tempo.
Não se trata, portanto, de três campos isolados. Ao contrário, Filosofia, Patrimônio e História estabelecem um diálogo permanente. A Filosofia contribui para problematizar os conceitos de memória, identidade, cultura e preservação; o Patrimônio oferece vestígios, objetos, lugares e práticas que materializam a experiência histórica; e a História interpreta esses testemunhos, situando-os em seus contextos sociais, políticos e culturais.
Essa relação possui, para mim, uma dimensão ainda mais significativa. São justamente essas áreas que escolhi abraçar ao longo de minha trajetória de formação e atuação. Concluí graduações em História e Filosofia e, posteriormente, busquei diversas especializações relacionadas à História, à Filosofia, ao Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural e a outras áreas das Ciências Humanas.
Mais do que formações acadêmicas, esses campos representam grandes paixões e compromissos pessoais. Eles orientam minha maneira de compreender o mundo, de interpretar a experiência humana e de participar da preservação dos bens que constituem a memória coletiva.
Este artigo pretende, assim, apresentar uma reflexão sobre essas três áreas, destacando sua origem, sua importância social e sua contribuição para a preservação da memória e para a compreensão do ser humano. Busca-se também demonstrar que pensar, preservar e interpretar são ações profundamente relacionadas e indispensáveis à formação de uma sociedade consciente de sua história e de sua responsabilidade perante as gerações futuras.
2 O Dia do Filósofo e a importância do pensamento
O dia 16 de agosto é tradicionalmente celebrado no Brasil como o Dia do Filósofo. A data é dedicada aos profissionais e estudiosos da Filosofia, área do conhecimento voltada à investigação de questões relacionadas à existência, ao conhecimento, à ética, à moral, à política, à verdade e aos fundamentos do pensamento humano.
A escolha da data costuma ser associada ao nascimento de Platão, um dos mais importantes pensadores da Antiguidade. Entretanto, para fins de rigor acadêmico, é recomendável caracterizar o 16 de agosto como uma data comemorativa tradicionalmente observada, sem afirmar que se trata necessariamente de uma efeméride oficial instituída por lei específica.
A Filosofia surgiu, segundo a tradição historiográfica, na Grécia Antiga, especialmente entre os séculos VII e VI a.C., quando determinados pensadores passaram a formular explicações racionais sobre a natureza, o cosmos, a vida social e a condição humana. Esse processo não significou o desaparecimento das explicações míticas, mas a formação gradual de novas maneiras de questionar e interpretar a realidade.
Entre os grandes nomes da tradição filosófica encontram-se Sócrates, Platão e Aristóteles, cujas contribuições atravessaram os séculos e continuam influenciando o pensamento contemporâneo. Sócrates destacou-se pela investigação crítica dos conceitos e pela importância atribuída ao diálogo; Platão desenvolveu reflexões sobre o conhecimento, a justiça, a política e a educação; e Aristóteles elaborou contribuições decisivas para a lógica, a ética, a política, a metafísica e as ciências naturais.
A Filosofia, entretanto, não pode ser compreendida apenas como um conjunto de teorias produzidas por pensadores do passado. Ela é também uma atitude diante da realidade, marcada pela disposição de questionar, investigar e examinar criticamente as ideias que orientam a vida individual e coletiva.
Ser filósofo significa aprender a perguntar. Significa não aceitar automaticamente uma afirmação apenas porque ela é repetida ou apresentada como indiscutível. Significa examinar argumentos, identificar contradições, questionar conceitos e buscar compreender os fundamentos das ideias.
Em uma sociedade marcada pela velocidade da informação, pela multiplicidade de opiniões e pela circulação de conteúdos nem sempre confiáveis, o pensamento filosófico assume importância ainda maior. A Filosofia contribui para o desenvolvimento da autonomia intelectual, da capacidade argumentativa e da responsabilidade ética diante das decisões que afetam a vida em sociedade.
A reflexão filosófica pode partir de perguntas aparentemente simples, mas cujas consequências são profundas:
- O que é a verdade?
- O que é a justiça?
- O que significa ser livre?
- O que é o conhecimento?
- Como devemos viver?
- Que sociedade desejamos construir?
Essas questões demonstram que a Filosofia permanece atual porque os grandes problemas humanos continuam presentes. Embora os contextos históricos se transformem, as sociedades continuam enfrentando dilemas relacionados à liberdade, à desigualdade, à responsabilidade, à justiça, à violência, à verdade e ao sentido da existência.
Minha aproximação com a Filosofia nasceu justamente dessa necessidade de compreender e refletir. Ao longo da minha trajetória acadêmica, busquei transformar essa inquietação em formação, estudo e pesquisa. Concluí minha graduação em Filosofia e aprofundei meus conhecimentos por meio de estudos especializados, mantendo permanente interesse pelas questões filosóficas e por sua relação com a História, a cultura e o patrimônio.
Para mim, ser filósofo não significa possuir todas as respostas. Significa, sobretudo, ter coragem intelectual para continuar fazendo perguntas. Significa reconhecer os limites do próprio conhecimento, estar disposto ao diálogo e compreender que a busca pela verdade exige investigação, rigor, humildade e abertura à revisão das próprias convicções.
3 O Dia Nacional do Patrimônio Histórico: preservar a memória
No dia 17 de agosto, o Brasil celebra o Dia Nacional do Patrimônio Histórico e Cultural. A data está relacionada ao nascimento de Rodrigo Melo Franco de Andrade, ocorrido em 17 de agosto de 1898. Advogado, jornalista e escritor, Rodrigo Melo Franco foi uma das figuras fundamentais para a institucionalização das políticas de preservação do patrimônio cultural brasileiro.
Em 1936, a proposta de criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) foi elaborada por Mário de Andrade, a pedido do então ministro da Educação e Saúde, Gustavo Capanema. Rodrigo Melo Franco de Andrade foi indicado para organizar e dirigir o novo órgão, cuja criação se consolidou em 1937. Ele tornou-se seu primeiro diretor e permaneceu à frente da instituição por aproximadamente três décadas. O SPHAN daria origem ao atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).
A escolha do dia 17 de agosto possui, portanto, forte significado simbólico. A data homenageia uma personalidade decisiva para a formação das políticas nacionais de proteção patrimonial e estimula a sociedade a refletir sobre a importância da preservação da memória cultural brasileira.
O patrimônio cultural constitui um dos principais elementos de ligação entre passado, presente e futuro. Quando falamos em patrimônio histórico, não devemos pensar apenas em prédios antigos, monumentos ou igrejas. O conceito de patrimônio cultural é muito mais amplo e envolve bens materiais e imateriais.
Entre os bens materiais, encontram-se edificações, documentos, objetos, obras de arte, conjuntos arquitetônicos, sítios arqueológicos e espaços históricos. O patrimônio cultural também compreende manifestações imateriais, como saberes, celebrações, tradições, formas de expressão, técnicas e modos de fazer. Essa compreensão ampliada permite reconhecer que a cultura não está presente apenas nos objetos preservados, mas também nas práticas sociais transmitidas entre gerações.
Preservar o patrimônio significa reconhecer que determinados bens e manifestações possuem significado para uma comunidade e para a sociedade. Significa preservar referências, proteger testemunhos e assegurar que determinadas experiências humanas não desapareçam completamente com o passar das gerações.
Durante minha formação acadêmica, o estudo do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural tornou-se uma das áreas pelas quais desenvolvi especial interesse. Essa escolha não ocorreu por acaso. Sempre compreendi que a preservação da memória constitui uma responsabilidade coletiva e uma condição importante para o exercício da cidadania cultural.
Um monumento abandonado, um documento destruído, uma construção histórica descaracterizada ou uma tradição esquecida representam perdas que podem ser irreversíveis. Por isso, considero que o profissional dedicado ao patrimônio exerce uma função que ultrapassa a conservação física dos bens. Seu trabalho também está relacionado à preservação da identidade, da memória coletiva e dos vínculos simbólicos que as comunidades estabelecem com seus lugares, objetos e práticas culturais.
Preservar não significa impedir que uma sociedade avance. Preservar significa permitir que o desenvolvimento ocorra sem que sejam apagadas as referências que ajudam uma comunidade a compreender sua própria trajetória. O patrimônio não deve ser visto como obstáculo à modernização, mas como elemento capaz de orientar transformações mais conscientes, equilibradas e socialmente responsáveis.
4 O Dia Nacional do Historiador: investigar e interpretar o passado
No dia 19 de agosto, celebra-se oficialmente o Dia Nacional do Historiador. A data foi instituída pela Lei nº 12.130, de 17 de dezembro de 2009, que estabeleceu sua comemoração anual em 19 de agosto. A escolha está relacionada ao nascimento de Joaquim Aurélio Barreto Nabuco de Araújo, conhecido como Joaquim Nabuco, ocorrido em 19 de agosto de 1849.
Joaquim Nabuco foi historiador, diplomata, jurista, jornalista, escritor e importante liderança do movimento abolicionista brasileiro. Sua atuação intelectual e política esteve profundamente relacionada à interpretação da sociedade brasileira e à luta contra a escravidão, um dos mais graves problemas da história nacional.
A criação de uma data nacional dedicada ao historiador representa o reconhecimento da importância da História para a sociedade. O conhecimento histórico contribui para a compreensão das experiências humanas, das permanências e mudanças sociais, dos conflitos e das diferentes formas de organização política, econômica e cultural.
Mas o que significa ser historiador?
O historiador não é simplesmente alguém que memoriza datas e acontecimentos. Ele é um pesquisador. Seu trabalho envolve localizar, selecionar, analisar, comparar, contextualizar e interpretar fontes históricas. Documentos, cartas, fotografias, jornais, livros, objetos, monumentos, relatos orais, arquivos e diversas outras fontes podem contribuir para a compreensão de determinado período ou acontecimento.
O historiador trabalha, portanto, com evidências. Seu objetivo não deve ser simplesmente reproduzir versões estabelecidas, mas investigar os processos históricos e compreender suas diferentes dimensões. Isso exige método, crítica documental, conhecimento bibliográfico e atenção às condições em que as fontes foram produzidas, preservadas e transmitidas.
A História é composta por acontecimentos, mas também por pessoas, relações sociais, conflitos, ideias, costumes, transformações culturais, instituições e experiências coletivas. Por isso, estudar História é estudar o próprio ser humano no tempo.
O trabalho historiográfico também possui uma dimensão ética. Ao interpretar o passado, o historiador deve evitar anacronismos, simplificações e julgamentos descontextualizados. É necessário considerar os valores, as estruturas sociais, as relações de poder e as circunstâncias históricas que condicionaram as ações dos indivíduos e dos grupos.
Minha escolha pela História representa uma das bases mais importantes da minha trajetória acadêmica e profissional. Sou licenciado em História e busquei complementar minha formação com especializações em diferentes períodos e campos históricos, incluindo História do Brasil, História Antiga, História Medieval e História Contemporânea, além de áreas relacionadas ao patrimônio e à cultura.
Ser historiador, para mim, significa assumir o compromisso de investigar, interpretar e transmitir conhecimento. Significa compreender que o passado não deve ser utilizado simplesmente como instrumento de nostalgia ou como mecanismo de exaltação acrítica. O passado precisa ser estudado de forma crítica, responsável e contextualizada.
A História não oferece respostas prontas para todos os problemas do presente, mas fornece instrumentos para compreendê-los melhor. Ao revelar as origens, as transformações e as consequências dos processos históricos, ela contribui para que a sociedade reconheça os desafios que enfrenta e tome decisões mais conscientes.
5 Filosofia, Patrimônio e História: três caminhos que se encontram
Quando observamos as três datas comemorativas de agosto, percebemos que existe entre elas uma profunda relação. A Filosofia nos ensina a pensar; o Patrimônio nos ensina a preservar; e a História nos ensina a compreender.
São três verbos que, juntos, representam grande parte da minha trajetória:
Pensar. Preservar. Compreender.
O filósofo questiona os fundamentos e examina criticamente as ideias que orientam a vida individual e coletiva. O profissional do patrimônio protege os testemunhos culturais, valoriza os vínculos de pertencimento e contribui para a transmissão da memória. O historiador investiga e interpreta os processos históricos, analisando as experiências humanas em suas diferentes dimensões.
Podemos estabelecer, portanto, uma espécie de diálogo entre essas áreas:
- A Filosofia pergunta: por quê?
- A História investiga: como chegamos até aqui?
- O Patrimônio preserva: o que devemos transmitir às próximas gerações?
Essas perguntas não são independentes. Ao contrário, complementam-se. Não é possível preservar adequadamente um bem sem refletir sobre seu significado, sua função social e os valores que representa. Da mesma forma, não é possível compreender plenamente um patrimônio sem investigar sua história, seus usos, suas transformações e as relações de poder envolvidas em sua valorização.
Essa relação demonstra que conhecimento, memória e cultura não podem ser tratados como áreas secundárias. Uma sociedade que abandona a reflexão pode tornar-se vulnerável à superficialidade, à desinformação e à aceitação passiva de discursos prontos.
Uma sociedade que abandona sua memória pode perder referências de identidade e enfraquecer os vínculos que unem suas comunidades. E uma sociedade que desconhece sua História pode ter dificuldade para compreender os próprios problemas contemporâneos, pois muitos dos conflitos atuais possuem raízes em processos construídos ao longo do tempo.
Filosofia, Patrimônio e História formam, assim, dimensões complementares de uma mesma vocação. A Filosofia oferece instrumentos para questionar; a História fornece caminhos para investigar; e o Patrimônio reúne referências que permitem preservar e transmitir experiências humanas significativas.
Minha trajetória nessas três áreas representa, portanto, mais do que uma sequência de formações acadêmicas. Ela expressa um compromisso intelectual e pessoal com o pensamento crítico, a preservação da memória e a compreensão da experiência humana. Ao pensar, preservar e compreender, essas áreas contribuem para uma sociedade mais consciente de seu passado, mais responsável diante do presente e mais preparada para construir o futuro.
6 Minha trajetória: uma escolha feita de paixão e conhecimento
Ao refletir sobre essas três datas, percebo que elas também representam parte da minha própria história. Não escolhi a Filosofia, a História e o Patrimônio apenas como áreas acadêmicas. Escolhi esses campos porque encontrei neles questões que despertam permanentemente minha curiosidade, minha sensibilidade e meu desejo de aprender.
Minha formação acadêmica foi construída gradualmente. Concluí a graduação em História e, posteriormente, em Filosofia, além de realizar diversas especializações relacionadas às Ciências Humanas, incluindo História do Brasil, História Antiga, História Medieval, História Contemporânea, Filosofia, Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural, Produção Cultural, entre outras áreas de estudo.
Essa formação representa muito mais do que uma coleção de títulos. Ela expressa uma trajetória de estudos, dedicação e permanente aperfeiçoamento. Cada curso, cada livro, cada pesquisa, cada artigo e cada projeto contribuíram para ampliar minha compreensão sobre o ser humano, a sociedade, a cultura e os processos históricos.
Ao longo desse caminho, descobri que minhas grandes paixões se encontram justamente na interseção entre essas áreas. Gosto de pensar, pesquisar, estudar documentos, conhecer personagens históricos, compreender processos sociais, preservar histórias, falar sobre patrimônio e escrever. Gosto, sobretudo, de compartilhar conhecimento.
Essas atividades não constituem tarefas isoladas. Elas fazem parte de uma mesma maneira de compreender a vida intelectual e o compromisso com a sociedade. Pensar permite formular perguntas; pesquisar possibilita buscar respostas; estudar documentos ajuda a reconstruir experiências; e compartilhar conhecimento transforma o saber individual em instrumento de formação coletiva.
Talvez essa seja a verdadeira essência da minha trajetória: aprender continuamente, investigar com responsabilidade, preservar aquilo que possui significado histórico e cultural e contribuir para que o conhecimento alcance outras pessoas.
Minha atuação nas áreas da Filosofia, da História e do Patrimônio representa, portanto, uma escolha feita de paixão e conhecimento. É uma escolha que se renova diariamente por meio da leitura, da pesquisa, da escrita, do diálogo e do compromisso com a valorização da cultura e da memória.
7 O papel social do conhecimento
Em tempos de profundas transformações tecnológicas e sociais, discutir a importância da Filosofia, da História e do Patrimônio significa também discutir o papel do conhecimento na sociedade.
Vivemos em uma época na qual qualquer pessoa pode produzir, publicar e compartilhar informações em poucos segundos. Essa possibilidade representa uma importante forma de democratização do acesso ao conhecimento, permitindo que diferentes grupos sociais expressem suas experiências, divulguem pesquisas e participem do debate público.
Entretanto, essa realidade também cria novos desafios. A abundância de informações não garante, por si só, a qualidade ou a veracidade do conteúdo divulgado. Por essa razão, as informações precisam ser analisadas, as fontes devem ser verificadas, as narrativas necessitam ser contextualizadas e as opiniões precisam ser diferenciadas dos fatos comprovados.
Nesse cenário, Filosofia, História e Patrimônio assumem importância estratégica. A Filosofia contribui para o desenvolvimento do pensamento crítico, da capacidade argumentativa e da autonomia intelectual. Ela ensina a formular perguntas, examinar conceitos, identificar contradições e avaliar os fundamentos dos discursos.
A História fornece instrumentos para compreender processos, contextos e relações de continuidade e mudança. Ao investigar o passado de maneira crítica, o historiador contribui para superar simplificações, combater interpretações anacrônicas e compreender que os acontecimentos são resultado de múltiplas relações sociais, políticas, econômicas e culturais.
O Patrimônio, por sua vez, possibilita preservar referências culturais e históricas que ajudam as comunidades a reconhecer sua trajetória. Monumentos, documentos, paisagens, objetos, práticas e manifestações culturais constituem testemunhos que podem contribuir para a formação da identidade e para o fortalecimento do sentimento de pertencimento.
As três áreas, portanto, contribuem para formar cidadãos mais conscientes de sua identidade, de seus direitos e de sua responsabilidade perante a sociedade. Também favorecem uma participação mais qualificada na vida pública, pois estimulam a reflexão, a análise crítica das informações e o respeito à diversidade das experiências humanas.
O conhecimento não deve permanecer restrito aos espaços acadêmicos. Universidades, escolas, museus, arquivos, instituições culturais, meios de comunicação e pesquisadores possuem a responsabilidade de aproximar o saber da sociedade. Essa aproximação deve ocorrer por meio de uma linguagem clara, sem abandono do rigor científico, permitindo que o conhecimento seja compreendido e apropriado por diferentes públicos.
Em uma sociedade marcada pela circulação rápida de informações, conhecer não significa apenas acumular dados. Significa saber interpretar, avaliar, relacionar e utilizar o conhecimento de maneira ética e responsável. É nesse sentido que Filosofia, História e Patrimônio se unem: a Filosofia ensina a questionar, a História ensina a compreender e o Patrimônio ensina a valorizar e preservar.
A defesa do conhecimento é, assim, também uma defesa da cidadania, da democracia e da memória coletiva. Uma sociedade que pensa criticamente, conhece sua História e valoriza seu patrimônio possui melhores condições para enfrentar os desafios do presente e construir um futuro mais consciente, plural e responsável.
8 Considerações finais
Agosto tornou-se, para mim, um mês particularmente significativo. Em um intervalo de quatro dias, três datas comemorativas permitem-me celebrar três dimensões fundamentais da minha trajetória:
- 16 de agosto — Dia do Filósofo;
- 17 de agosto — Dia Nacional do Patrimônio Cultural;
- 19 de agosto — Dia Nacional do Historiador.
Essas datas representam muito mais do que comemorações inscritas no calendário. Elas simbolizam áreas às quais dediquei estudos, formação, pesquisa e, sobretudo, paixão. A celebração do Dia do Filósofo em 16 de agosto é tradicionalmente observada no Brasil; o Dia Nacional do Patrimônio Cultural, em 17 de agosto, homenageia Rodrigo Melo Franco de Andrade; e o Dia Nacional do Historiador, celebrado em 19 de agosto, foi instituído pela Lei nº 12.130, de 17 de dezembro de 2009.portal.iphan.gov+2
A Filosofia ensinou-me a questionar. A História ensinou-me a investigar. O Patrimônio ensinou-me a preservar. Essas três experiências contribuíram decisivamente para formar a maneira como compreendo o mundo, a sociedade e a própria condição humana.
Ao concluir as graduações e buscar diversas especializações nessas áreas, não procurei apenas ampliar minha formação profissional. Procurei compreender melhor o ser humano, sua cultura, sua memória e sua trajetória histórica. Cada etapa de estudo representou uma oportunidade de aprofundamento e uma possibilidade de ampliar minha participação na produção, na preservação e na difusão do conhecimento.
Hoje, quando observo minha caminhada, percebo que existe uma linha condutora entre tudo aquilo que escolhi estudar: a busca pelo conhecimento e a defesa da memória.
Ser filósofo é manter viva a capacidade de pensar, questionar e examinar criticamente as ideias que orientam a vida individual e coletiva.
Ser profissional e pesquisador do patrimônio é compreender que aquilo que recebemos das gerações anteriores merece respeito, estudo, valorização e preservação. É reconhecer que monumentos, documentos, lugares, objetos, práticas e manifestações culturais constituem referências fundamentais para a memória das comunidades.
Ser historiador é assumir o compromisso de investigar o passado com responsabilidade, rigor metodológico e consciência crítica, contribuindo para que o conhecimento histórico permaneça vivo e socialmente significativo.
São três caminhos diferentes, mas que se encontram em uma mesma missão:
pensar, preservar e compreender.
Talvez essa seja a melhor definição das minhas grandes paixões. Acredito que um povo que conhece sua História compreende melhor o presente; uma sociedade que preserva seu Patrimônio protege referências essenciais de sua identidade; e um ser humano que aprende a pensar filosoficamente amplia sua capacidade de compreender o mundo e agir de maneira mais consciente.
Por isso, neste mês de agosto, mais do que celebrar três datas, celebro uma trajetória. Uma trajetória construída entre livros, pesquisas, documentos, salas de aula, patrimônio, cultura, História e Filosofia.
Essa trajetória continua sendo escrita. E, enquanto houver uma pergunta a ser formulada, uma história a ser investigada ou uma memória a ser preservada, continuarei acreditando que o conhecimento constitui uma das mais nobres formas de servir à sociedade.
Referências
ARQUIVO NACIONAL (Brasil). Dia Nacional do Historiador. Brasília, DF: Arquivo Nacional, 2020. Disponível em: https://www.gov.br/arquivonacional/pt-br/canais_atendimento/imprensa/noticias/dia-nacional-do-historiador.
BRASIL. Lei nº 12.130, de 17 de dezembro de 2009. Institui o Dia Nacional do Historiador, a ser celebrado anualmente no dia 19 de agosto. Brasília, DF: Presidência da República, 2009. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l12130.htm.
FUNDAÇÃO PEDRO CALMON. Dia do Historiador: interpretando o passado, elucidando o presente e construindo o futuro. Salvador: Fundação Pedro Calmon, 2015.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (Brasil). Dia do Patrimônio Cultural. Brasília, DF: IPHAN, [s. d.]. Disponível em: https://portal.iphan.gov.br/noticias/detalhes/5771/brasil-comemora-o-dia-do-patrimonio-culturaluma-vida-dedicada-ao-patrimonio-cultural-brasileiro-ass.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (Brasil). Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade. Brasília, DF: IPHAN, [s. d.].
UNIVERSIDADE FEDERAL DE GOIÁS. 16 de agosto: Dia do Filósofo. Goiânia: Faculdade de Filosofia, UFG, 2022.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAUÍ. 16 de agosto: Dia do Filósofo. Teresina: UFPI, 2019. Disponível em: https://ufpi.br/ultimas-noticias-ufpi/8926-16-de-agosto–dia-do-fil%C3%B3sofo.
UNIVERSIDADE FEDERAL DO TOCANTINS. Data celebra profissionais que se dedicam aos estudos da Filosofia. Palmas: UFT, 2021.
Alexandre Rurikovich Carvalho
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Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho, natural de Nova Iguaçu (RJ). Construiu sólida trajetória acadêmica e intelectual, sendo licenciado em História e Filosofia, tecnólogo em Eventos e bacharel em Direitos Humanos, com ênfase em Ciências Sociais. Possui formação em nível de pós-graduação nas áreas de História do Brasil, História Antiga e Medieval, Filosofia, Ciências Políticas, Ciências da Religião, Jornalismo, Docência do Ensino Superior, Produção Cultural e Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural, entre outras. É coautor de mais de quarenta obras literárias e atua como colunista do jornal cultural ROL, desenvolvendo produção intelectual voltada à história, cultura, filosofia, direitos humanos e diplomacia cultural. Foi reconhecido por Notório Saber em Filosofia pelo Instituto Universitas Ecclesiae do Brasil. Detentor de centenas de títulos honoríficos, medalhas e condecorações concedidas por instituições nacionais e internacionais, é também detentor de 30 títulos de Doutor Honoris Causa. É Doctor of Humane Letters pela Logos University International (UNILOGOS) e Doctor of Philosophy in Peace pela International University of Higher Martial Arts Education. Atua como Agente de Representação Diplomática Dinástico-Cultural, com status de Embaixador Honorário da Organização Internacional de Diplomacia Cultural. Exerce a presidência da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA) e é Diretor do Centro Sarmathiano de Altos Estudos Filosóficos e Históricos. Registros Profissionais: Historiador – MTE 0001072/RJ Jornalista – MTE 0039605/RJ

