abril 24, 2024
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O vizinho encrenqueiro

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Laude Kämpos: Conto ‘O vizinho encrenqueiro’

Laude Kampos
Laude Kampos
O galo encrenqueiro
O galo encrenqueiro
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Quando João Cheio de Razão chegou para morar na rua Santa Paciência, mostrou-se uma pessoa de boa convivência; mas, com o passar do tempo revelou-se um confuseiro, obstinado. Logo na primeira semana da chegada ele encrencou com a gata da vizinha que, toda tarde, invadia o quintal dele para tentar comer o passarinho engaiolado. Depois arranjou confusão com o vizinho da frente por causa do cachorro que mijava no pneu do carro dele; mas, o borogodó maior aconteceu quando o revoltado resolveu encrencar com Tiririca, o galo de estimação do senhor Antônio Boa Gente.

Tiririca, que era o xodó do aposentado, comia na mão do dono, e tinha uma cama box, especialmente, feita para ele que embora fosse uma criatura mansa e carinhosa, não sabia ficar calado. Toda madrugada, perto das quatro da manhã, o esperto galo pulava da cama para o pé de jaca e cucuritava escandalosamente.  

O recém-chegado, estressado, foi reclamar do canto do galo para o vizinho.

— O senhor, por favor, faça seu galo se calar a noite; porque se esse desaforado continuar me acordando pelas madrugadas, eu não respondo por mim. — disse o antigalo, ameaçador.

— Seu João que mal o meu galo lhe fez? — perguntou o homem de boa paz.

— Ele está perturbando o meu sossego. Quando começo a pegar no sono esse filho de uma égua, da boca frouxa, me acorda com uma cantoria desafinada. — disse o homem, irritado.

— O senhor me desculpe, mas o que posso fazer se desde que o mundo é mundo, o galo canta?

— Se o galo canta desde que o mundo nasceu, isso não é problema meu. A questão é: ou o senhor cala a boca do seu galo para que eu possa dormir sossegado, ou…

— Ou, o quê? Seu João, sou da paz até a página dois. Se o senhor mexer com o meu Tiririca, o céu vai fechar na sua cabeça. Se não quiser ouvir barulho dos outros, que compre um tampão para os ouvidos; ou, então, se mude para o deserto. Não vou impedir meu galo de cantar só porque o senhor não gosta de música raiz. — disse o apaixonado pelo canto galesco.

O vizinho enfezadão virou a cara e saiu bravo, xingando até os Anjos.

Tiririca, sem saber da confusão, continuou animado cantando pelas madrugadas até seu dono receber uma citação para comparecer à Justiça.

No dia da audiência o que era para ser uma boa discussão jurídica entre os dois operadores do direito, foi uma comédia.

O primeiro a falar foi o advogado do encrenqueiro.

— João Cheio de Razão vem à presença de Vossa Excelência promover a competente Ação Cominatória por perturbação do sossego c/c indenização por Danos Morais em face do senhor Antônio Boa Gente. Excelência, o Autor, desde que se mudou para a rua da Santa Paciência não tem tido um sono tranquilo e seu merecido descanso porque, todos os dias, por volta das quatro da manhã, o galo do réu começa a cantar.

Em seguida falou o advogado do réu.

— Excelência, é lamentável que a Justiça, já tão sobrecarregada, seja onerada, ainda mais, com essa ação sem fundamento.

— Como sem fundamento, nobre colega? Se a Justiça é para reparar o direito de quem o tem, por que não a procurar?

— De fato, a Justiça é o caminho legal para se reparar direitos; todavia, em que pese os argumentos do nobre colega podemos constatar, no caso em tela, flagrante desrespeito ao direito alheio, uma vez que o meu cliente foi citado como réu injustamente. Posto isto, venho requerer a este juízo a extinção do processo por carência da ação…

— Como, assim, carência da ação? — perguntou o recém-formado, atordoado.

— Doutor, nos autos, não consta nenhum documento que prove que o meu cliente participou, direta ou indiretamente, da relação jurídica alegada; impondo-se, portanto, a competente extinção do processo por ilegitimidade passiva ad causam. — disse o experiente advogado defendendo seu cliente com a firmeza de uma navalha afiada.

— Como ele não pode ser réu da ação se é dono do galo? — perguntou advogado, se agitando

— Aí é que está o ponto ‘X’ da questão, nobre colega.  Por acaso o senhor tem algum documento que comprove que o meu cliente é dono do galináceo?

— Não; mas todos os vizinhos sabem que o galo é dele.

— Nobre colega, com o devido respeito, o senhor já deve ter ouvido falar que, no direito, ‘saber não é provar’. Se no processo não há prova de que meu cliente cantou pela madrugada, estimulou o Tiririca cantar, ou é dono do galo, inexiste legalidade para tratá-lo como réu. — disse o brilhante advogado para o recém-formado que ficou com cara de quem perdeu a oportunidade de ficar em casa.

— Excelência — continuou o advogado do réu — tendo em vista a inexistência de prova da responsabilidade do meu cliente no fato alegado, impõe-se, imperioso, a extinção do processo para fazer cessar a flagrante injustiça praticada contra o senhor Antônio Boa Gente que foi acusado injustamente.

— Injustamente, não. Ele só foi citado como Réu por causa do galo dele.

— O nobre colega tem algum documento que demonstre que o meu cliente é proprietário do galo?

— Não. — disse o advogado, meio desenxabido.

— Então, resta inegável que a ação promovida pelo seu cliente contra o senhor Antônio Boa Gente configura uma grande injustiça tendo em vista que ela se amparou numa falsa acusação.

— Falsa acusação, não; se o galo mora no quintal dele o que isso significa? — perguntou o advogado, assustado com o rumo da ação.

— Significa que o meu cliente é amante da natureza e tolerante com os galos que aparecem no quintal dele.

— Isso não tem lógica. — disse o novato advogado, tentando processar a informação.

— O que não tem lógica é o caro colega gastar o tempo da Justiça com uma ação sem fundamento. Uma curiosidade: o nobre colega saberia dizer se o galo Tiririca vive solto ou preso? — perguntou o experiente doutor Júlio, que também criava galos em sua fazenda.

— Solto, soltíssimo. Passei um dia vigiando o galo e percebi que ele é muito agitado. Uma hora ele se aboletou no pé da jaca, logo em seguida pulou no braço da mangueira, e, depois foi se sentar na goiabeira. Não há dúvida que ele é um galo de temperamento forte.

— O senhor está querendo dizer que o meu cliente não consegue dominar o galo?

— Exatamente, isso, doutor! A razão de estarmos hoje, aqui, é justamente pelo fato de seu cliente não ter controle sobre o galo. — disse o advogado se animando para perder a causa.

 Doutor Júlio, sorrindo da inexperiência do advogado, disse:

— Excelência, com o devido respeito legal, a insensatez jurídica do nobre colega se revelou preocupante. Como o senhor pode ouvir da própria boca do advogado da parte contrária, o galo Tiririca é um rebelde sem causa que vive aprontando suas galices sem que ninguém possa dominá-lo.

— Ah! Isso é verdade. — reiterou, fervorosamente, o advogado abobado.

— Excelência, data máxima vênia, uma vez que o próprio advogado do autor declarou, em juízo, que o galo Tiririca é um indomável e que ninguém tem domínio sobre as vontades dele, resta inegável a flagrante injustiça contra o meu cliente que foi citado como réu, numa ação sem pé e sem rabo.

— O senhor está dizendo que seu cliente não é responsável pelo galo?

— O senhor acabou de dizer para esse juízo que Tiririca vive solto pelo quintal. Se o galo vive livre para ir e vir, como o senhor acabou de afirmar, o meu cliente não poderá ser responsabilizado pelos atos de um galo que só faz o que quer.

O Juiz não se aguentou, sorriu.                              

— Isso não tem lógica. — retrucou o advogado, confuso.

— O que não tem lógica é o nobre colega imputar falso crime ao meu cliente.

— Isso é um absurdo!

— Absurdo, não, doutor; é a realidade jurídica.  Permitir que um galo permaneça livre em seu quintal não significa que você é o dono dele.

—  Se o seu cliente não é o responsável pelo canto do galo, então, quem é? —

O Juiz parou de escrever para prestar atenção nos dois.

— Deus.

— Deus? — perguntou o advogado, perdido.

— Exatamente; mas, se o senhor me permitir um conselho, melhor não o contestar. Se Ele criou o galo para cantar, porque seu cliente vai-lhe querer calar?

O jovem advogado perdeu a argumentação e o processo que foi extinto por ilegitimidade passiva ad causam.

            Seu Antônio Boa Gente deixou a audiência comemorando cada centavo que pagou para o advogado; e, seu vizinho, João Cheio de Razão, voltou para casa sem razão, e, com custas para pagar.

O galo Tiririca, para provocar o vizinho, passou a cantar duas vezes pela madrugada.


Laude Kämpos


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