Paulo Siuves: ‘O café que nunca esfria’


Acordar costumava ser um ato silencioso. Aquele suspiro longo, talvez o canto de um pássaro, depois o tilintar da colher no pires lembrando que o dia existe… Hoje? Hoje, é uma avalanche de notificações. O celular começa o dia antes da gente — um maestro apressado que sacode a batuta e já nos empurra pra dentro da vida com vibrações, alertas e luzes piscando. Mal abrimos os olhos e já estamos em movimento — não físico, mas mental — navegando num mar de demandas que não deu nem tempo de pensar se queremos atender.
O café, coitado, perdeu o protagonismo, tornando-se mero coadjuvante. Ele esfria na xícara enquanto os dedos deslizam pela tela. A música da manhã — que antes era de respiração tranquila, o borbulhar da água, o chiado da chaleira, o silêncio entre os goles — agora é substituída por uma mixtape remixada por algoritmos. Cada notificação é uma flauta desafinada. Cada mensagem, um tropeço no compasso.
Vivemos uma sinfonia interrompida.
A pausa, esse intervalo precioso entre um pensamento e outro, foi sequestrada sem direito a resgate. E com ela, a possibilidade de escuta ativa. Escutar o mundo, escutar o outro, escutar a si mesmo. O tempo do café, que deveria ser o tempo da contemplação, virou tempo de consumo. A gente consome tudo, notícias, imagens, ideias prontas. E, como sempre acontece quando se engole rápido demais, o sabor se perde.
A música, metáfora que me acompanha em crônicas e poemas, também sofre. Porque a música precisa de silêncio para existir; música sem silêncio é só barulho. Sem pausa, não há ritmo. Sem escuta, não há harmonia. E o que temos hoje é uma overdose de ruído, uma apresentação solo de ansiedade em tempo real.
O celular virou mais que ferramenta: virou maestro, palco e plateia ao mesmo tempo. Ele dita o ritmo do dia, ocupa cada brecha e exige presença constante. Ele nos desperta e nos embala para dormir. E nesse ciclo, o pensamento se torna refém. A primeira atividade cerebral do dia é desbloquear a tela. Último gesto antes de dormir, é verificar as notificações – talvez zerá-las – conferir se o mundo não explodiu enquanto a gente piscava.
A vida virou trilha sonora de aplicativo. E o café, que nunca esfria porque nunca é bebido com atenção, transformou-se em símbolo dessa pressa que nos rouba a melodia.
Talvez o café quente seja uma forma de resistência. Um manifesto silencioso contra a aceleração. Tomar o café com atenção é como ouvir um álbum inteiro sem pular faixas. É como ler um poema sem procurar o resumo no Google. É como viver um instante sem querer registrá-lo. É existir por um minuto sem querer provar nada pra ninguém.
A Filosofia, que me acompanha na pós-graduação e na vida, ensina que pensar exige tempo. E tempo exige silêncio. E silêncio, ah… silêncio exige coragem. Coragem de não responder imediatamente. Coragem de deixar o celular vibrar sem atender. Coragem de ouvir o próprio compasso.
No fim, talvez a pergunta seja simples: quantas melodias deixamos de ouvir por causa da pressa? Quantos cafés foram bebidos sem serem saboreados? Quantos pensamentos foram interrompidos por uma tela acesa?
A resposta não está no celular.
Ela mora na pausa.
No gole de café quente.
Está na música que ainda podemos compor, se tivermos coragem de calar um pouco o mundo para finalmente nos ouvir.
Paulo Siuves
- O preço da liberdade - 23 de janeiro de 2026
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- Entre o meu amor que celebra e o meu país que chora - 8 de dezembro de 2025
Natural de Contagem/MG, é escritor, poeta, músico e guarda municipal, atuando na Banda de Música da Guarda Civil Municipal de Belo Horizonte como Flautista. É graduado em Estudos Literários pela Faculdade de Letras (FALE) da UFMG. Publicou os livros ‘O Oráculo de Greg Hobsbawn’ (2011), pela editora CBJE, e ‘Soneto e Canções’ (2020), pela Ramos Editora. Além desses, publicou contos e poemas em mais de cinquenta antologias no Brasil e no exterior.


Paulo, a cada dia nosso cativeira, metamorfoseado tecnologicamente, se torna mais sufocante, como é a fumaça de um cigarro para quem não é fumante. E, no entanto, para quem é viciado, a fumaça tecnológica, mesmo à custa dos pulmões, traz um prazer prazerosamente mórbido!
Verdade , se não pararmos para apreciar , e ter um tempo de qualidade deixamos de vivenciar momentos , pessoas , assuntos , companhias ou mesmo a si mesmo e poder ter consciência de cada tempo em nosso cotidiano.
Com tanta facilidade, tecnologia precisamos desacelerar para apreciar o simples , valorizando cada momento de nossos dia a dia e tendo um olhar diferenciado cada momento vivenciado dia após dia .
Verdade! Hoje em dia, no corre corre diário, acabamos por perder cafés, chás, palavras, pessoas……