Ella Dominici: ‘Díptico poético da Alma Ferida’


Aos judeus do século XIX Dreyfusards (em ressonância com Yehuda Amichai)
Onde a certeza endurece a terra…
Onde a certeza endurece a terra,
nada consente em nascer.
Ali a justiça caminha sem hesitar,
com os olhos fechados à voz humana.
A verdade não ama o solo rígido.
Prefere a terra revolvida
pelas perguntas,
pelas mãos que tremem
antes de condenar.
É no intervalo da dúvida
que o ser humano ainda respira.
E somente ali
algo de justo
ousa permanecer humano.
(em ressonância com Nelly Sachs)
Da dor das acusações injustas
As cinzas não desaparecem.
Permanecem suspensas
na memória do mundo.
Dessa poeira ardente
nasce uma vigília silenciosa —
não para acusar os mortos,
mas para impedir que o esquecimento
se torne cúmplice.
A dor não é um peso,
é uma chama frágil
confiada aos vivos.
Algumas perdas exigem fidelidade.
E algumas almas
só encontram repouso
quando a memória
aprende a cuidar
dos que virão
Ella Dominici
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Natural de São Paulo (SP), é endodontista por profissão e formada no curso superior de Língua e literatura francesa. Uma profissional que optou por uma ciência da área da saúde, mas que desde a infância se mostrava questionadora e talentosa na Arte da Escrita, suscitando da parte de um mestre visionário a afirmação de ela ser uma escritora nata, que deveria valorizar o dom que recebera. Atendendo ao conselho recebido, na maturidade Ella cumpre o vaticínio e lança o primeiro livro solo de poemas (Mar Germinal), rompendo com a escrita meramente contemplativa, abraçando fragmentos, incertezas e dualidades para escancarar oportunidades a si como ao outro. Dribla o autoritário tempo, flagra mazelas psicológicas em minúsculas e múltiplas impressões exteriores e internas. É membro da AMCL – Academia Mundial de Cultura e Acadêmica Internacional da FEBACLA. Coautora de várias antologias. Publica na Revista Internacional The Bard e se inscreveu no 8º Festival de Poetas de Lisboa, participando da antologia promovida pelo evento


Ella, você é uma ‘confeiteira das palavras’. E, com elas, oferece aos leitores o finíssimo ‘sabor’ de poemas inesquecíveis!
Por vezes agridoces ou ácidas, mas a lembrança é sempre a doçura da concepção de lucidez.
Obrigada querido editor-mor, Sérgio, por nos trazer o enlevo necessário à continuidade da poesia.
Gratidão e carinho!
Que poema maravilhoso!
Parabéns por essa inspiração tão profunda!
Um forte abraço de luz.
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