Ella Dominici: Poema ‘Corpo Lume em Terra’


Nasci da argila e da espera.
Sou parte do barro que sonhou ser rosto e permaneceu espelho.
Carrego comigo as veias abertas do que sente demais,
e o pulso secreto das coisas que não sabem morrer.
Há em mim a casa e o exílio.
A casa é onde o olhar repousa,
o exílio é quando o olhar não se reconhece.
E sigo, em cada rua, plantando pequenas eternidades:
palavras, gestos, silêncios,
pedras transparentes que a vida deixa como migalhas do invisível.
O amor, esse desassossego manso,
anda comigo, calçado de areia e espanto.
Não pede posse — pede presença.
Ele chega como um sol que se desculpa por nascer tarde,
mas ainda aquece o corpo todo
Direi:
sou o que restou da travessia — e o que começa depois do naufrágio.
Sou mulher de sal e aurora,
carrego oceanos no peito e um punhado de luz no escuro.
Sigo, mesmo cega, coração conhece atalhos que a razão ignora.
E quando a noite cai, volto a ser
palavra de cura,de memória, de fogo.
Que sopra nas feridas e acende o invisível.
E ainda que o mundo me esqueça,
sei que a vida — essa antiga amante — sempre volta,
com o perfume do impossível.
Ella Dominici
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Natural de São Paulo (SP), é endodontista por profissão e formada no curso superior de Língua e literatura francesa. Uma profissional que optou por uma ciência da área da saúde, mas que desde a infância se mostrava questionadora e talentosa na Arte da Escrita, suscitando da parte de um mestre visionário a afirmação de ela ser uma escritora nata, que deveria valorizar o dom que recebera. Atendendo ao conselho recebido, na maturidade Ella cumpre o vaticínio e lança o primeiro livro solo de poemas (Mar Germinal), rompendo com a escrita meramente contemplativa, abraçando fragmentos, incertezas e dualidades para escancarar oportunidades a si como ao outro. Dribla o autoritário tempo, flagra mazelas psicológicas em minúsculas e múltiplas impressões exteriores e internas. É membro da AMCL – Academia Mundial de Cultura e Acadêmica Internacional da FEBACLA. Coautora de várias antologias. Publica na Revista Internacional The Bard e se inscreveu no 8º Festival de Poetas de Lisboa, participando da antologia promovida pelo evento

