Ella Dominici: ‘A aurora que te lembra’


E quando o sol enfim romper a noite, restará de ti apenas o rumor suave que a manhã carrega — o sopro que abandona os frutos, a claridade que se desfaz como cintilação nas folhas. Eu, apaixonado e cansado da própria febre, deixo que tua ausência se instale em mim como ouro tênue: relâmpago que não volta, sombra que respira. E nesse clarão que se dissolve, descubro que te amar é perder-te devagar, como quem bebe a luz até o último gesto do dia.
E quando a manhã chega, simples e sem cerimônia, descubro que ficou de ti apenas um jeito de luz na janela, um silêncio macio espalhado pela casa. Não é dor; é lembrança viva, dessas que aquecem devagar, como quem toca a água morna antes de mergulhar. Carrego tua ausência com a mesma ternura com que te buscava, e percebo — meio distraído, meio desarmado — que amar também é aprender a guardar o que não volta, e mesmo assim continuar esperando.
Ella Dominici
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Natural de São Paulo (SP), é endodontista por profissão e formada no curso superior de Língua e literatura francesa. Uma profissional que optou por uma ciência da área da saúde, mas que desde a infância se mostrava questionadora e talentosa na Arte da Escrita, suscitando da parte de um mestre visionário a afirmação de ela ser uma escritora nata, que deveria valorizar o dom que recebera. Atendendo ao conselho recebido, na maturidade Ella cumpre o vaticínio e lança o primeiro livro solo de poemas (Mar Germinal), rompendo com a escrita meramente contemplativa, abraçando fragmentos, incertezas e dualidades para escancarar oportunidades a si como ao outro. Dribla o autoritário tempo, flagra mazelas psicológicas em minúsculas e múltiplas impressões exteriores e internas. É membro da AMCL – Academia Mundial de Cultura e Acadêmica Internacional da FEBACLA. Coautora de várias antologias. Publica na Revista Internacional The Bard e se inscreveu no 8º Festival de Poetas de Lisboa, participando da antologia promovida pelo evento


Ella, se há algo que julgo extraordinário num texto é ele ser relativamente curto, mas dizer e expressar milhares de coisas e sentimentos que nos tocam a alma.
Este texto, nesse sentido, é um paradigma!
Você, com a Varinha de Condão de sua sensibilidade à flor da pele, transmuta a noite, como sinônimo de sofrimento, no amanhecer, como sinônimo de aceitação, Da amada, restou a presença com “um jeito de luz na janela, um silêncio macio espalhado pela casa”. A ausência dela não dói na alma do amante, mas a aquece e remanesce na espera física do que sabidamente não virá, mas que nele ecoará com “o rumor suave que a manhã carrega”!
Que lindo e profundo comentário vindo de quem entende de sentimentos.
Gratidão, nobre e querido amigo, Sérgio Diniz!