Pietro Costa: Poema ‘A língua em frenesi’


Em devoção, beijo a flor do Lácio
como quem profana um templo.
Com as sílabas, traço um laço devasso,
roçando o sentido nos lábios do tempo.
Quero degustar o idioma
até que ele gema em metáfora,
e o prazer, em pleno sintoma,
seja vírgula suspensa,
entre o fôlego e a ânfora.
Sou amante reincidente da palavra,
incurável de semântica e pulsão,
perfil que em vogais se escancara
e em consoantes morde o coração.
Quero atravessar a língua
com Cecília, leve e abissal,
perder-me no labirinto de Clarice,
onde o pensamento sangra o essencial,
e arder com Hilda, no clímax
da volúpia mística e visceral.
Mas também ouvir Adélia
rezando o chão com carne e fé,
sentar-me à mesa de Carolina
onde a fome é o que a língua é,
e aprender com Conceição
que a memória escreve o que a vida quer.
Quero a língua viva, indócil,
na dor e na delícia de ser inteira:
feliz não por promessa fácil,
mas por combustão, fogueira,
até que o último suspiro
seja o poema
em sua forma derradeira.
Pietro Costa
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Natural de Brasília (DF), é escritor, poeta e Assessor Jurídico de 2ª Instância do MPU (PGJM). Autor de 11 livros, ganhou projeção internacional com O Barco e o Verbo: 10 Anos de Travessia Literária, lançado na London Book Fair 2026, onde recebeu o título Royal Writer of the Year. Seu livro Requintes de Sensibilidade (2025) foi lançado no Salão do Livro de Genebra 2026, ampliando o alcance de sua poesia no cenário europeu. Vencedor do Troféu Clarice Lispector 2024 (SolRidente) e do 1º Concurso Mágico de Oz 2025 (A Matemática da Presença), integrou a delegação brasileira no Festival Internacional de Poesia de Bucareste (2025). Professor de Escrita Criativa, Idealizador e Facilitador do LabVerso: Núcleo de Poéticas Experimentais e Mentoria Literária de Alta Formação, Doutor Honoris Causa Mult., soma mais de 400 participações em coletâneas literárias.

