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Punição

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Clayton Alexandre Zocarato: Conto ‘Punição’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada por IA da Meta - 1º de setembro de 2025,
 às 11:14 PM
Imagem criada por IA da Meta – 1º de setembro de 2025,
às 11:14 PM

Aquele  garoto era danado. Gostava de se exibir para as meninas como se marcasse território — um jovem rei de um império de tempestades juvenis, onde ninguém ousava ofuscar seu trono improvisado.

Apesar dos seus apenas 14 anos e ainda estar no Ensino Fundamental, já acumulava passagens por diferentes reformatórios. Tinha uma paixão pela criminalidade que faria inveja a muitos delinquentes veteranos.

Seu prazer diário eram os entorpecentes.

Carregava uma mistura de sarcasmo e marasmo nos olhos. 

Sabia, no fundo, que se quisesse mesmo subir no mundo do crime, teria que ousar mais — cometer algo além das típicas travessuras escolares.

E numa de suas noites mergulhadas em devaneios sombrios, cruzou com um chefão do submundo.

Ficou deslumbrado.

A figura imponente exalava poder e medo. 

Vestia um terno de linho italiano e desfilava num Cadillac preto, cercado de seguranças que carregavam “uzis” como se fossem extensões dos próprios braços. Prontos para mandar um recado a bala para quem ousasse atravessar o caminho de seu líder.

O chefão inspirava lealdade sustentada por montes de dólares — uma forma eficaz de blindar-se contra traições e conter a inveja dos próprios aliados.

O garoto, diante daquilo, ficou fascinado.

Seus pequenos delitos pareciam insignificantes. 

Estava cansado das broncas dadas por policiais gordos, entediados com suas rotinas, ou por professores e diretores que mais pareciam burocratas tristes, defendendo seus salários baixos com a mesma força com que defendiam suas regras ultrapassadas.

Para aquele menino, a vida já era uma punição — uma sentença escrita em alguma língua ancestral de sofrimento.

Não conhecera os pais.

Foi adotado por uma família tão desestruturada que, muitas vezes, preferia os horrores do orfanato aos abusos físicos e psicológicos dos “tutores”.

Adotado por piedade, viu a esperança virar pesadelo: foi forçado a fazer todo tipo de trabalho doméstico e, por sua timidez, frequentemente zombado, inclusive por conta da sua sexualidade.

Na escola, conheceu pequenas gangues que infernizavam os moradores e comerciantes da região.

Pelo uso excessivo de maconha e pela cor da sua pele — mais escura que a maioria dos colegas — também sentiu na pele o amargor do racismo.

Diante de tudo isso, sua raiva germinou.

Juntou dor e ódio, e transformou-os num combustível ardente de raiva.

Queria vingança. Queria que todos aqueles que um dia o feriram sentissem sua ira.

As surras de autoridades deixaram de doer.

Aprendera a conviver com a dor.

E o pouco de amor que ainda restava em sua alma havia se corrompido: agora, acreditava que a violência que sofria deveria ser devolvida ao mundo — com juros.

Foi perdendo os traços éticos e mergulhando numa estética sombria, de raiva pura.

O submundo era sedutor demais para alguém tão machucado.

Naquela noite, vagando por becos sujos da cidade, sentiu que talvez o chefão fosse sua chance de “ser alguém na vida”.

O gangster caminhava com calma, enquanto seus homens recolhiam o dinheiro da extorsão, da “proteção”, dos subornos, das propinas.

Era o rei do crime — temido, obedecido, reverenciado.

Implacável com traidores. Tolerante apenas com a verdade.

O garoto respirou fundo e decidiu se aproximar.

Seu coração batia forte.

Evitava olhar nos olhos do chefão e dos capangas, com medo de tomar uma rajada de balas só por ousar chegar perto demais.

Sabia que teria que impressionar — sua fala teria que ser persuasiva.

Mas com um vocabulário pobre, cheio de vícios e gírias, não conseguiu causar boa impressão.

Se prostrou diante do ídolo e, sem pensar, começou a tagarelar:

“E aí, mano… parça… compadre… ídolo… brother…”

Mal sabia ele que, naquele universo, respeito se conquista no silêncio — e reverência e  não se improvisa.

Tomou um tiro na testa…

Nenhum gangster que se preze, gosta da idolatria frenética de qualquer vagabundo.


Clayton Alexandre Zocarato

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