abril 04, 2026
Festival da Cultura Surda
Professor: profissão perigo?
O segundo sinal
Teresópolis recebe solenidade histórica da FEBACLA
O livro
Pequenas permanências
Josemir Lemos é finalista no Prêmio Ecos da Literatura! 
Últimas Notícias
Festival da Cultura Surda Professor: profissão perigo? O segundo sinal Teresópolis recebe solenidade histórica da FEBACLA O livro Pequenas permanências Josemir Lemos é finalista no Prêmio Ecos da Literatura! 

Meu Universo em Dúvida

image_print

Clayton Alexandre Zocarato ‘Meu Universo em Dúvida’

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton A. Zocarato
Imagem criada por IA do Grok - Meu universo em dúvida 12 de janeiro de 2026, às 8:04 PM
https://grok.com/imagine/post/f105f1e1-c8ef-4188-af99-8d2525e34c4b
Imagem criada por IA do Grok – Meu universo em dúvida 12 de janeiro de 2026, às 8:04 PM
https://grok.com/imagine/post/f105f1e1-c8ef-4188-af99-8d2525e34c4b

Baseado na canção Meu Universo É Você – Roupa Nova – Álbum Luz – 1988

Amar, na pós-modernidade, tornou-se um gesto quase subversivo, porque exige permanência num tempo que venera o provisório, e é desse paradoxo que nasce esta crônica, escrita não para explicar o amor, mas para sobreviver a ele quando a depressão o cerca como uma névoa espessa e silenciosa. 

Há dias em que acordar é um ato filosófico: levantar da cama significa aceitar, ainda que sem convicção, que o mundo continua mesmo quando o sentido falha, e que existir é um verbo que se conjuga apesar de….

O amor, nesse cenário, não aparece como salvação romântica, mas como eixo frágil em torno do qual tudo gira, um centro instável que sustenta o caos interior, como se o outro fosse o último ponto fixo num universo que se expande sem pedir permissão. Amar alguém passa a ser a tentativa de organizar o vazio, de dar nome ao silêncio que cresce dentro do peito quando as certezas morrem uma a uma, vítimas de uma modernidade tardia que prometeu liberdade e entregou cansaço, prometeu escolha e entregou ansiedade. 

A depressão não grita; ela sussurra perguntas ontológicas enquanto o mundo exige produtividade, felicidade performática e respostas rápidas, e nesse conflito o sujeito se fragmenta, dividido entre o desejo de desaparecer e a necessidade quase infantil de ser visto, reconhecido, amado.

O amor, então, não é euforia, é resistência: é acordar todos os dias e decidir ficar, mesmo quando tudo em volta diz que partir é mais fácil, mesmo quando a própria identidade parece líquida demais para sustentar compromissos duradouros.

Na crise existencial, o eu se pergunta qual é o seu lugar num mundo onde tudo é relativo, onde valores se dissolvem como açúcar em café quente, e onde até os sentimentos são medidos por algoritmos e curtidas; ainda assim, amar alguém é afirmar que nem tudo pode ser reduzido a dados, que existe algo irredutível, quase sagrado, na presença do outro. 

O amor vira abrigo contra o niilismo cotidiano, uma pequena metafísica doméstica construída de gestos simples, de silêncios compartilhados, de uma confiança que não se explica, apenas se vive. 

Mas esse mesmo amor também dói, porque expõe a fragilidade do ser, escancara medos antigos, reabre feridas que a razão acreditava cicatrizadas; amar é permitir que o outro veja o que nem nós suportamos encarar sozinhos. 

A depressão, nesse contexto, não é apenas doença, é sintoma de uma época que perdeu seus grandes sentidos e deixou o indivíduo sozinho com perguntas grandes demais, e o amor surge como tentativa desesperada de resposta, não definitiva, mas suficiente para atravessar o dia.

Há uma melancolia própria de quem ama num tempo cínico, porque amar exige esperança, e esperar, hoje, parece ingenuidade; ainda assim, é nessa ingenuidade que reside a última forma de coragem.

O sujeito pós-moderno ama sabendo que tudo pode acabar, que nada é garantido, que o futuro é uma promessa instável, mas ama mesmo assim, como quem acende uma vela em meio ao vendaval, consciente de que a chama pode se apagar, mas incapaz de aceitar a escuridão total.

E quando a crise existencial aperta, quando o sentido da vida parece uma pergunta mal formulada, é o amor que reorganiza o caos interno, não oferecendo respostas filosóficas elaboradas, mas uma presença concreta, um “estou aqui” que vale mais do que qualquer sistema de pensamento. 

Amar, nesse nível, é aceitar a incompletude como condição humana, é reconhecer que não somos universos autossuficientes, mas constelações que só fazem sentido em relação ao outro. 

Talvez por isso, em meio à depressão e à dúvida, o amor seja vivido como centro gravitacional: não porque resolve tudo, mas porque impede que tudo se desfaça.

Na pós-modernidade cansada, amar é um ato (a)gnóstico, um posicionamento diante do nada, uma forma de dizer que, apesar de todas as incertezas, apesar do medo, apesar do vazio, ainda vale a pena existir — nem que seja apenas porque, para alguém, somos o universo possível.


Clayton alexandre Zocarato

Voltar

Facebook



Clayton Alexandre Zocarato
Últimos posts por Clayton Alexandre Zocarato (exibir todos)

One thought on “Meu Universo em Dúvida

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

PHP Code Snippets Powered By : XYZScripts.com
Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial
Acessar o conteúdo