Bruno Marquês Areno: Poema ‘Inexprimível’


Se um dia precisei de coragem,
não foi para conquistar o mundo,
mas apenas para ser
o pouco que me cabia.
E falhei.
Falhei por descuido,
como quem deixa cair a própria vida
sem sequer ouvir o impacto.
Viver
não é senão a amarga doçura
de morrer lentamente.
Hoje, uma dor discreta.
Amanhã,
meia dúzia de sangues silenciosos
a correr por dentro,
sem testemunha.
Depois,
lágrimas em quantidade suficiente
para salgar o corpo inteiro
como se a tristeza
fosse o único modo de me conservar.
E então a voz cede.
Primeiro vacila.
Depois falha.
Por fim, esquece.
A boca desaprende o gemido.
E o gemido ainda que imperfeito,
ainda que desafinado
era o último instrumento
capaz de sustentar a dor.
Quando até isso se perde,
já não há tradução possível da dor .
E sem tradução,
a dor deixa de existir
porque deixa de ser dita.
E sem dor,
não há mais nada:
nem choro,
nem riso,
nem lágrima.
Nem sequer o corpo
para carregar o que resta de nós
Bruno Marquês Areno
- Inexprimível - 15 de junho de 2026
- Nokhwa - 28 de fevereiro de 2026
- Carta ao ministro - 17 de fevereiro de 2026
Nasceu em Nampula, Moçambique, e cresceu entre Namapa e Pemba, experiências que moldaram o seu olhar crítico sobre a diversidade cultural do norte do país. Estreou na literatura em 2022 com fotografias feitas à Letras, tornando-se o primeiro estudante da Universidade Rovuma a publicar um livro. É autor de ‘Diário de um Inútil’ e coautor de diversas antologias nacionais e internacionais. Publica artigos, resenhas e textos literários em revistas e jornais culturais, com destaque para o Clube de Leitura Olhar Literário. Atua também como tradutor literário para a língua emakhuwa. Fundador do Clube de Leitura Olhar Literário e co-fundador do Grupo de Escritores de Nampula, desenvolve trabalho ativo de promoção da leitura. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa e é Embaixador Cultural Brasil–África pela Academia de Letras de São Pedro da Aldeia – ALSPA.


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