Rhea Cristina – entrevista com o escritor e professor universitário boliviano-mexicano Germán A. de la Reza


Queridos amigos do Jornal Cultural ROL, é para mim uma grande alegria e uma grande honra apresentar-lhes Germán A. de la Reza, escritor e acadêmico boliviano-mexicano, um verdadeiro intelectual, um erudito e uma das personalidades acadêmicas internacionais contemporâneas, com uma extensa e notável trajetória, especialista em história das relações interamericanas e em integração latino-americana.
Germán A. de la Reza nasceu em Cochabamba, Bolívia, e possui as cidadanias mexicana e boliviana. Ao longo de sua formação acadêmica e de sua atividade profissional, residiu no Peru, na França, na Romênia, na Suécia, no Brasil e no México. É pesquisador, poeta e romancista, especialista em história das relações interamericanas e em relações econômicas internacionais, com uma ampla trajetória acadêmica internacional.
É professor-pesquisador da Universidade Autônoma Metropolitana (UAM), do México, desde 1998. Foi pesquisador da Universidade de Estocolmo e da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM). Em 2005-2006 e 2011, ocupou as cátedras “Simón Bolívar”, da Universidade de Paris, e “Estudos Latino-Americanos”, da Universidade de Toulouse, entre outras. É Pesquisador Nacional Emérito e membro da Academia Mexicana de Ciências, duas das principais distinções da vida acadêmica mexicana. Sua formação universitária inclui Filosofia e História na Universidade de Bucareste e Filosofia Política na Universidade Paris I. Possui dois doutorados: um em Filosofia pela Universidade de Toulouse e outro em Economia Internacional pela Universidade Paris II.

É autor de mais de trinta livros publicados em dez países e em cinco idiomas. Entre suas obras mais importantes estão La invención de la paz (2009), distinguida com o Prêmio “Pensamiento de América”, da OEA, e disponível em cinco idiomas; Pensamiento confederal latinoamericano 1810–1865 (2022); Génesis de la supranacionalidad europea (2024); Integración económica en América Latina (2006); Défis de l’intégration en Amérique latine (2010); e Sistemas complejos (2010, Barcelona).
No âmbito literário, publicou os volumes de poesia: Silencio en el Paraíso (2024); Poemas selectos – poeme alese (2023), uma seleção poética traduzida por Catalina Constantinescu; Doppelgänger. La distancia interior (2022); Poemas 1988–2008 (2009); e, anteriormente, Décima interior (1996), sua obra de estreia, Columna de luz e En el reino de las teas. É também autor de uma antologia de poesia romena publicada pela UAM Xochimilco (2000) e de uma seleção de poemas de Nichita Stănescu. Em 2021, publicou o romance Cuaderno de Timișoara. Saga del último corresponsal del Este, traduzido para o romeno por Coman Lupu sob o título Caietul de la Timișoara (2023).
Sua obra acadêmica e literária foi incluída em mais de cinquenta programas de estudo de universidades das Américas e da Europa.

Rhea Cristina: O Brasil é o maior país da América Latina, tanto em extensão territorial quanto em população. Durante cinco anos, o senhor foi professor convidado da UNESP (Universidade Estadual Paulista), uma das mais prestigiosas universidades públicas do Brasil. Que outras lembranças guarda do Brasil e o que este país representa para o senhor?
Germán A. de la Reza: Tenho uma relação com o Brasil que não consigo decifrar inteiramente. Recém-casados, meus pais se instalaram em uma propriedade rural próxima à fronteira com o Brasil. Ali viveram até poucas semanas antes do meu nascimento, quando partiram para Cochabamba. Esse início acabou sendo premonitório: o Brasil sempre esteve, de uma forma ou de outra, presente em minha vida.
Fui professor e pesquisador convidado em universidades brasileiras; neste país, dois de meus livros foram traduzidos e publicados — há um terceiro a caminho —, e revistas acadêmicas brasileiras publicaram cerca de dez de meus artigos científicos. Em 2010, estive a ponto de me integrar-me à UNESP, um projeto do qual desisti após o nascimento de meu filho no México, naquele mesmo ano. Em 2015, percorri diversas cidades brasileiras proferindo conferências sobre a integração latino-americana.
Há também algo menos fácil de explicar. O dinamismo editorial, a dimensão cultural do país e sua extraordinária capacidade de absorver influências e transformá-las em algo próprio fazem com que o Brasil tenha sido e continue sendo, para mim, uma presença particularmente magnética.
Rhea Cristina: O que representam para o senhor as palavras “história” e “memória individual e coletiva”?
Germán A. de la Reza: Não considero história e memória sinônimos. A memória pertence àqueles que viveram, herdaram ou imaginaram uma experiência; a história, por sua vez, começa justamente quando submetemos essas lembranças ao confronto, à contextualização e à crítica. Mas uma tampouco pode prescindir da outra.
A memória individual conserva gestos, medos, silêncios e detalhes que muitas vezes não chegam aos arquivos. A memória coletiva organiza essas lembranças e lhes confere um significado compartilhado, embora também possa deformá-las, selecionar umas e apagar outras. O historiador trabalha nessa zona de tensão: necessita da memória, mas não pode obedecê-la.
Grande parte de minha atividade como historiador é realizada com colegas de universidades do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Paraná, e esse diálogo entre diferentes tradições e especialidades me confirmou algo: um acontecimento histórico se transforma quando deslocamos a escala da instituição para o indivíduo ou da experiência pessoal para as estruturas coletivas. Nenhuma dessas perspectivas dá conta, por si só, do passado. O interessante começa quando as obrigamos a dialogar.
Rhea Cristina: O senhor é especialista em integração latino-americana. Como assinalamos acima, possui aproximadamente 60 a 70 trabalhos acadêmicos —artigos e livros— publicados em revistas de relações internacionais, história intelectual latino-americana e economia política internacional. O que representa a integração latino-americana e qual é o seu papel no contexto cultural atual?
Germán A. de la Reza: A América Latina possui duas grandes matrizes linguísticas e culturais: a hispano-americana e a luso-brasileira. Pouco depois da independência política, no início do século XIX, essa diferença nos separou de tal maneira que não foram poucos os episódios de rivalidade e antagonismo. Durante muito tempo, as elites hispano-americanas conheceram melhor Paris, Londres ou Madri do que o Rio de Janeiro ou São Paulo, e algo semelhante ocorreu no Brasil em relação ao mundo hispano-americano.
No entanto, durante o século XX e, sobretudo, no XXI, uns e outros conseguiram criar espaços culturais comuns e lançar as bases de uma economia regional mais integrada. Para mim, a integração latino-americana começa justamente aí: não em apagar as diferenças, mas em fazer com que deixem de funcionar como fronteiras mentais.
Cada país tem, naturalmente, suas próprias características, mas sinto os romances de Jorge Amado, os contos de Clarice Lispector ou os poemas de Murilo Mendes —penso particularmente em seu maravilhoso Canto do Noivo— tão próximos de minha cultura quanto os romances de García Márquez ou os poemas de Neruda.
Por isso, a integração possui também uma dimensão cultural que muitas vezes esquecemos quando a reduzimos ao comércio ou às instituições. Consiste em criar hábitos de leitura, tradução, circulação e reconhecimento mútuo. O Brasil deixa então de ser, para a América Hispânica, um grande vizinho relativamente desconhecido, e a América Hispânica deixa de ser, para o Brasil, uma extensão indistinta situada do outro lado de suas fronteiras. Talvez seja nesse reconhecimento recíproco que se encontre uma das formas mais duradouras de integração.
Rhea Cristina: O que representa, atualmente, o tipo de pesquisa histórica e política que o senhor propõe em escala europeia e mundial? Qual é, hoje, o lugar do historiador e do analista político em escala global?
Germán A. de la Reza: Uma parte importante de minha pesquisa tem consistido em estudar processos de integração, confederação e supranacionalidade evitando apresentá-los como desfechos inevitáveis. O que me interessa, ao contrário, é reconstruir as alternativas que existiram em cada momento: os projetos que triunfaram, mas também aqueles que foram abandonados, derrotados ou simplesmente esquecidos. Creio que aí reside uma das utilidades contemporâneas da história. O passado não nos diz o que devemos fazer, mas nos mostra que muitas instituições que hoje parecem naturais foram, em sua origem, apenas uma possibilidade entre várias.
Isso vale tanto para a América Latina quanto para a Europa. Durante muito tempo, interpretou-se a integração europeia como uma experiência excepcional e a latino-americana como uma sucessão de tentativas frustradas. Quando se estudam ambas as genealogias com maior atenção, o panorama se revela mais complexo: a América Latina formulou desde cedo projetos confederais e mecanismos de segurança coletiva, enquanto a Europa precisou passar por numerosos ensaios, conflitos e fracassos antes de construir instituições supranacionais estáveis. A comparação permite que nos afastemos tanto da autocomplacência europeia quanto do fatalismo latino-americano.
O lugar do historiador e do analista político é hoje, nesse sentido, paradoxal. Nunca dispusemos de tantos documentos, bases de dados e possibilidades de acesso à informação; mas tampouco estivemos submetidos a uma pressão semelhante para opinar imediatamente sobre acontecimentos cujo significado ainda ignoramos. O analista corre o risco de se transformar em comentarista da urgência, e o historiador, ao se fechar exclusivamente no arquivo, corre o risco oposto: chegar tarde demais às perguntas de seu tempo.
Talvez nossa tarefa consista precisamente em resistir a ambas as tentações. Não se trata de prever o futuro nem de dar lições a partir do passado, mas de devolver profundidade temporal a debates que a atualidade costuma apresentar como se tivessem começado esta manhã. Para mim, essa capacidade de mostrar que o presente chega por genealogias abertas — e que, portanto, também contém alternativas — continua sendo uma das funções intelectuais mais necessárias da história.
Uma entrevista realizada por Rhea Cristina. Qualquer uso do conteúdo desta entrevista implica citar a fonte e requer o consentimento prévio por escrito de Rhea Cristina.
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Cristina Rhea, natural de Găești, Romênia, profissionalmente é professora assistente e especialista em Relações Públicas. Licenciatura em Jornalismo pela Universidade de Bucareste, Faculdade de Jornalismo e Ciências da Comunicação. Admitida no Mestrado em Jornalismo da Universidade de Indiana, Escola de Jornalismo, Estados Unidos, Estudos de Pós-Graduação. Mestrado em Marketing Digital e eCommerce, Universidade Internacional Isabel I de Castilla e Instituto Superior Europeu de Barcelona (ISEB), Espanha. Na área literária e jornalística, conhecida pelo pseudônimo Rhea Cristina, é Membro da União de Escritores Romenos, com 10 livros publicados nas áreas de literatura, jornalismo e ciências da comunicação Recebeu o Prêmio da União de Escritores Romenos, 1996. Prêmio Especial Poesia dei Popoli – in memoria di ‘Alfredo Pirola’, por ocasião da 24ª edição do Prêmio Internacional, Centro Giovani e Poesia – Triuggio, concedido pelo Centro Giovani e Poesia em Triuggio, Itália, 2015. Bolsista da Fundação Kulturkontakt Austria, Programa de Escritores em Residência, Viena, Áustria, 2007. Publicou poesia e artigos literários em muitas revistas e antologias culturais romenas na Alemanha, Espanha, Líbano, Romênia e República da Moldávia.


Cristina, em mais uma de suas preciosas entrevistas, agora com o nosso amigo em comum, German A. de la Reza,, descortina-se a abrangência de uma caminhada-elo entre literatura, filosofia, história e relações internacionais.
Germán é um ser humano cosmopolita, cuja obra exsuda uma erudição e criação literária que se amalgam, generativas de belíssima forma e conteúdo!
Muito obrigada por este comentário tão verdadeiro sobre o homem de cultura e personalidade internacional Germán A. de la Reza! Sinto-me honrada com esta entrevista e com a publicação nesta maravilhosa revista!