novembro 06, 2026
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Uma nova colaboradora dá mais brilho ainda para a Equipe de Colunistas do ROL – REGIÃO ON LINE: Tereza Du'Zai

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A nova colunista Tereza Du’Zai é natural de Itajaí/SC

O nome da nossa nova colunista é Tereza Du’Zai. Ela é poeta, contista, cronista e professora de Língua Portuguesa e Literatura. O tempo, a loucura, a solidão e a morte são temas recorrentes na obra de Duzai que, desde 2015, tem se dedicado, também, à literatura fantástica e gótica. Vencedora do III Concurso UFES de Literatura na categoria poesia, participou também de coletâneas publicadas entre 2016 e 2017. Nesta edição do ROL, suas primeiras contribuições: poesias fantásticas, interessantes, revolucionárias e combativas, todas vibrantes e, surpreendentemente belas, apesar do vigor dos temas abordados. Repare, leitor(a), no estilo literário simples da poetisa Tereza. E na clareza de exposição dos assuntos e na força das palavras. Seja muito bem vinda ao nosso time de colunistas, Tereza! (Helio Rubens, editor)

 

Os Meus Ninguéns

Os meus ninguéns não são os ninguéns de Eduardo Galeano;
Os meus ninguéns, também filhos de ninguéns, pensam que são donos de tudo;
Os meus ninguéns vivem a vida explorando alguéns;
Os meus ninguéns, pouco são, embora acreditem muito ser;
A maioria dos meus ninguéns desconhece a própria língua, mas propaga estrangeirismos;
Muitos dos meus ninguéns são religiosos e supersticiosos;
Vislumbrados e insensíveis, compram excentricidades por obra de arte,
Gastam exorbitâncias em shoppings centers
E pechincham artesanatos à beira-mar.
Os meus ninguéns não são hum+mas aberrações humanas;
Desconhecem o significado de cultura, desprezam o folclore, mas se julgam cultos sobre todos os alguéns,
Eles não têm feições, têm maquiagens e plásticas;
Eles não conversam, encenam;
Eles não têm identidade, têm aparências;
Eles aparecem nas colunas sociais,
Mas valem menos do que a vaidade que os mata.

…

Poemas

Não gosto de poemas de amor, nunca gostei.
Poemas devem ferir, excitar, provocar fugas, mudança de página;
Poemas devem ser escritos não para serem lidos, ou suportados, até o final,
Mas para serem sentidos, admirados ou repudiados, desde o início.
Gosto de poemas hemorrágicos, catastróficos, assassinos, incendiários;
Gosto de poemas malcheirosos, estúpidos, invasivos;
Aqueles que denunciam, provocam, ofendem;
Aqueles que desenterram cadáveres esquecidos
E com eles dançam um bom twist sobre mármores e flores artificiais.
Gosto, sobretudo, da poesia que denuncia os significados
das insignificâncias do mundo

…

Brasil

Em Lisarb existe uma máquina de triturar sonhos,
Com dentes humanos,
Movida por um grande braço de dor.
Em seu corpo, vermes holográficos
Deslizam contorcendo-se em vórtices
Engolidos por uma grande mola propulsora
Que os transforma numa massa uniforme,
Modelável, humana.

…

Volúpia

Todas nós, mulheres do mundo, somos Virgens Marias,

parimos virgens e continuamos virgens;

todas nós, mulheres do mundo, temos um José ausente, insuficiente;

todas nós, mulheres do mundo, queremos um anjo Gabriel que nos visite ao anoitecer;

todas nós, mulheres do mundo, temos um amante invisível,

que nos acende, nos santifica e nos penetra com sua luz;

todas nós, mulheres do mundo,

somos o nosso próprio milagre, o nosso próprio Deus,  o nosso próprio diabo.

Somos mães, irmãs e filhas de nós mesmas.

…

Maldade

A maldade dança rua afora

rodopia cada vez mais perversa,

coberta com seu manto rubro,

transbordante de alegria;

escarra à minha porta,

beija a boca da vizinha,

faz-lhe filhos deformados

e rodopia, rodopia invencível,

entre cacos de agonia.

Apenas seus pés choram

o sangue ciclo da menina morta: Esperança.

Morta entre um riso e um grito de bom dia.

…

Alegorias

A poesia grudou no céu da minha boca, na minha língua solta,

nos meus lábios secos.

Ai de ti!

Não me olhes!

Não me beijes!

Ou te tornarás um verso avesso,

o espelho de minh’alma inversa,

nas estrofes tortas de teu corpo travesso, que se atravessa,

que se arremessa sem pressa,

refletido em mim.

Em mim.

…

Divino

Não quero ouro, nem incenso, nem mirra;

não quero o menino, nem a mãe do menino.

Basta de milagres!

Basta de falsas puritanas!

Eu quero os três reis magros,

eu quero José com seu cajado sagrado,

eu quero sonhar com a estrela de Davi viva entre minhas pernas.

Sou um anjo em quatro dimensões.

Dê-me um pouco de calor e eu serei tua  salvação.

…

Condor

A noite se encheu de estrelas mortas,

estrelas de sombra,

filhas, netas, bisnetas de meus antepassados;

esposas de Deus, amantes de Maria,

penetradas e lambidas.

Invejei-as,

clamei pelo sêmen divino.

Desnudei-me, santifiquei-me.

Um minuto de silêncio, um sussurro débil,

e renasci como um poema oculto no ventre de uma casa vazia,

presa à sombra de um verso nu.

Um dia, talvez, Deus haverá de me comer.

…

Santa Clara

Se eu fosse Eva, eu amaria Deus sobre e sob todas as coisas:

sobre o solo sagrado, sobre as plantas miúdas;

sobre as folhas secas da figueira;

sob o céu ensolarado, enluarado, estrelado;

sob os olhares voluptuosos dos anjos e dos santos guardiões.

Conceberia eu o seu filho unigênito,

filho do prazer, não da submissão.

Que comesse Adão da árvore do conhecimento,

e que fosse a serpente sua fiel procriadora.

Eu permaneceria ignorante e feliz no Jardim do Éden.

Seria eu a eterna sedutora do Grande Criador

e seríamos o princípio, o verbo, o prazer.

…

Fatal

Eis meus mortos, acoados sob o mármore frio,

ocultos em suas cavernas púrpuras.

Inúteis.

Sem esperanças, sem milagres,

sem lágrimas ou dores.

Fulminados, aniquilados,

vestidos para a eternidade.

Vencidos.

Não mais o sol os aquecerá, não mais a chuva os banhará,

nenhuma honra os envaidecerá, nenhuma glória os ressuscitará.

Suas sentenças foram cumpridas.

O amor não os salvou.

….

Mudez

Desprezo o silêncio,

mesmo o mais diabólico,

a quem dedico o pior de mim.

Desprezo seus nervos, sua respiração,

deixo-o, porém, que deslize por minha língua, que desça por minha garganta,

e adormeça em meu peito,

Deixo-o,

este assombroso asilo de morcegos,

apenas para que eu possa cavalgar

e errar,

e errar,

e errar.

In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti. Amen.

Helio Rubens
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