Clayton Alexandre Zocarato
Crônica ‘De mansinho, quase sem querer’

Ele nunca foi de acreditar nesses amores calmos. Sempre pensou que amor mesmo era aquele que vem rasgando, esbagaça tudo, que faz a gente perder o juízo, esquecer de comer, mandar mensagem bêbado às três da manhã.
O tipo de amor que te joga no chão e ainda depois pisa sem piedade.
Drama, intensidade, cenas de novela.
Ele queria fogo, confusão e pele.
Achava que isso era amor — e talvez tenha sido, por um tempo.
Até Ela aparecer.
Nem foi cena de filme, nem música romântica.
Foi terça-feira à tarde, na fila do banco.
Ela, de fone no ouvido, cara de quem tava odiando estar ali.
Ele também. Mas aí ela olhou, riu do meu estresse e soltou um: “Não tem café nem wi-fi, mas pelo menos tem a gente aqui sofrendo junto, né?”
E foi isso. Simples. Bobo. Mas virou alguma coisa dentro dele. Um estalo, talvez.
Daí, começaram a se esbarrar.
No ônibus, na padaria, no ponto da esquina. Cada vez com uma conversa mole diferente.
Até que virou papo sério, depois riso fácil, e, sem perceber, já estavam ali, presentes, sem se invadirem.
Do tipo que pergunta se almocei, que manda meme besta, que sabe a hora de calar e a hora de ouvir.
E Ele? Ele começou a esperar por isso.
Ela foi apascentando seus dias — palavra estranha, né? Quase não se usa mais. Mas define bem. Tipo quem acalma o coração doido da gente, sem gritar, sem mandar.
Só chegando, ficando.
Foi ensinando que amor também pode ser paz.
Pode ser silêncio bom, aquele que não incomoda.
Amor pode ser fazer o café na medida certa. Pode ser dividir o guarda-chuva e rir dos pés molhados.
É… Ela veio diferente. Sem grandiosidades. Sem planos megalomaníacos. Só chegou. E ficou. Como quem já sabia o caminho.
Deu-lhe colo, mas sem prender. Deu-lhe espaço, mas sem soltar demais. Deu-lhe sossego. Ensinou-lhe que carinho também é revolução — que o toque leve também marca.
Hoje, quando olha pra trás, enxerga o tanto de barulho que chamava de amor.
O tanto de vendaval que confundiu como sendo presença.
E Ela veio na contramão disso tudo.
Mostrou que tem amor, que não grita, mas ainda assim ecoa. Amor que não exige, mas transforma. Amor que não corre, mas chega.
E aí Ele entendeu: o amor de verdade talvez seja esse que apascenta.
Que cuida. Que não bota medo, não cobra entrada, não ameaça partida.
Só está. Com Ela, aprendeu que amar não precisa doer. Que a gente não precisa viver em estado de urgência pra sentir.
E que calmaria também tem gosto bom — às vezes, até melhor.
E se for pra amar de novo, que seja assim: com café morno, conversa solta e um carinho que não passa.
Que seja leve, que seja riso frouxo, que seja do seu jeito — de mansinho, quase sem querer.
Clayton Alexandre Zocarato
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Natural de São Paulo, Capital, possui Licenciatura em História pelo Centro Universitário Central Paulista – Unicep – São Carlos/SP e graduação em Filosofia pelo Centro Universitário Claretiano – Ceuclar – Campus de São José do Rio Preto/SP. Escreve regularmente para o site Recanto das Letras (www.recantodasletras.com.br) usando o pseudônimo ZACCAZ, mesclando poesia surrealista, com haikais e aldravias. É Comendador da Ordem Cultural Beethoven.


Clayton, a cada dia, a cada texto, você se supera na Arte da Escrita!
Que crônica deliciosa! A leitura dela flui, feita uma folha embalada pelo vento, alcançando horizontes!