março 15, 2026
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O julgamento do frango

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Karla Dornelas

O julgamento do frango (que pediu tempero)

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Imagem gerada pelo Gemini

Dizem que a história aconteceu numa daquelas noites em que a fome não pede licença.

Ela entra. Senta. E ainda pergunta se tem mais.

A jovem passou a madrugada inteira tentando resolver o problema mais antigo da humanidade: o que comer. Abriu panela vazia, fechou panela vazia, olhou dentro da geladeira como quem espera que apareça um milagre entre a luz e o vento frio.

Nada.

Já estava quase considerando fritar o próprio pensamento quando alguém apareceu trazendo um frango, com aquela generosidade prática de quem resolve a vida sem muita filosofia, .

E que frango!

Dourado, cheiroso, daqueles que parecem ter passado a vida inteira se preparando exatamente para aquele momento.

A jovem, já meio fraca de tanto pensar e pouco mastigar, não fez muitas perguntas. Quando a fome aperta, a curiosidade costuma tirar férias.

Só depois — porque sempre existe um depois — alguém comentou, com aquele ar de quem gosta de estragar prato pronto, que ali estava um ovo disfarçado de galinha. Um futuro poleiro que não chegou a conhecer o próprio quintal.

Mas, a essa altura, o destino já estava decidido.

Existe uma lei antiga que nunca passou pelo Congresso: comida costuma nascer para encontrar a fome.

Claro que há quem pense diferente — e com razão. Tem gente que olha para uma cenoura e vê jantar. Olha para um frango e já imagina até o nome dele.

Tudo bem também.

O curioso é que, quando o assunto é comida, sempre aparecem especialistas em prato alheio. Surge logo um Seu Galo, juiz de panela e galinhada, um fiscal de frigideira e até um perito em panela queimada de brigadeiro.

Todo mundo pronto para dar sentença.

Enquanto isso, no silêncio respeitável do prato, o frango cumpre seu destino sem reclamar — o que, convenhamos, já demonstra mais educação que muita gente.

Porque, no fim das contas, a fome raramente julga.
Quem julga mesmo costuma estar de barriga ‘forrada’.

E, pensando bem, se o frango pudesse dar opinião sobre tudo isso…

Provavelmente pediria menos debate…

E mais tempero.


Karla Dornelas

Karla Dornelas
Karla Dornelas

Karla Dornelas, natural de Caratinga (MG), é escritora e poetisa. Membro da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes – FEBACLA e da Academia Brasileira de História e Litgeratura -ABHL, com projetos literários em desenvolvimento, incluindo a reedição de seu primeiro livro de poesias, ‘Simplesmente Você’.

Ao longo de sua trajetória, foi contemplada com menções honrosas por sua dedicação à arte e à literatura.

Sua escrita nasce do olhar sensível sobre o cotidiano, transformando o mundo em experiências poéticas e afetivas.

Com linguagem marcada pela delicadeza, musicalidade e criação de vocabulário próprio, busca dar voz ao invisível e valorizar o que é essencialmente humano, dedicando-se à construção de uma trajetória literária voltada à arte de tocar e transformar o leitor por meio da palavra.

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Sergio Diniz da Costa
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