outubro 23, 2026
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Entre o caminho e quem nos tornamos

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Nicole Menezes Martins tece uma crônica sensível e profunda sobre as pressões do futuro, o luto das expectativas e a coragem de recomeçar



Logótipo do "Jovens Talentos - Jornal Cultural ROL". Na parte superior, vê-se a silhueta de um grupo de jovens a comemorar com os braços erguidos sob o texto "Jovens Talentos". Abaixo, lê-se "Jornal Cultural" em letras azuis e "ROL" em destaque com um símbolo laranja à esquerda.
Logotipo da seção Jovens Talentos

Existe uma inquietação silenciosa em tentar construir uma vida que faça sentido. Queremos saber para onde estamos indo, ter alguma ideia do que desejamos encontrar e acreditar que as escolhas de hoje nos aproximam de algo que vale a pena. Então traçamos planos, estabelecemos metas e imaginamos quem seremos quando finalmente chegarmos lá. Talvez precisemos disso. Afinal, é difícil caminhar sem alguma direção. Mas existe uma diferença entre saber para onde queremos ir e acreditar que precisamos chegar exatamente ao lugar que imaginamos.

Em algum momento, podemos começar a viver como se o futuro fosse uma promessa que precisamos cumprir. O presente passa a ser uma espécie de passagem, um intervalo entre aquilo que somos e aquilo que esperamos nos tornar. Adiamos a tranquilidade até resolver determinado problema, a felicidade até alcançar certa conquista, a sensação de que estamos vivendo até que a vida finalmente se pareça com o que planejamos. E, sem perceber, transformamos os dias em etapas de uma jornada cujo destino parece sempre um pouco mais distante. Mas, se estamos constantemente esperando chegar a algum lugar para começar a viver, em que momento a vida acontece?

Talvez seja por isso que desejamos tanto ter certeza de nossas escolhas. Não queremos apenas um caminho; queremos a garantia de que ele vale o esforço, de que as renúncias terão significado e de que, no fim, não descobriremos que passamos anos tentando chegar a um lugar que já não desejávamos. Só que a vida não costuma oferecer esse tipo de garantia. Escolhemos com o entendimento que temos, a partir de desejos que ainda estão se formando, sem conhecer todas as pessoas que seremos ao longo do percurso. Há coisas que só aprendemos depois de vivê-las, e há caminhos que só conseguimos compreender quando já estamos longe o suficiente para olhar para trás.

Isso não significa que devemos abandonar nossos planos ou viver sem qualquer compromisso com o futuro. Ter uma direção pode nos ajudar a atravessar períodos de incerteza, assim como uma estrada nos permite seguir mesmo quando não conhecemos tudo o que existe adiante. A questão talvez esteja em como nos relacionamos com essa direção. Podemos caminhar em direção a algo sem exigir que cada passo confirme a escolha inicial. Podemos desejar profundamente uma coisa e, ainda assim, permanecer abertos à possibilidade de que a vida nos apresente algo que não sabíamos desejar. Afinal, se não somos os mesmos ao longo do tempo, por que esperar que todos os nossos desejos permaneçam intactos?

Às vezes, o que nos prende a um caminho não é mais o desejo de chegar ao destino, mas a dificuldade de admitir que já não queremos chegar lá. Investimos tempo, energia e partes de nós mesmos naquela escolha. Contamos aos outros sobre ela, imaginamos nosso futuro a partir dela e, aos poucos, começamos a confundir aquilo que decidimos fazer com aquilo que somos. Mudar de ideia, então, parece significar mais do que alterar um plano: parece colocar em dúvida a pessoa que fomos quando o escolhemos. E talvez seja por isso que algumas pessoas continuem perseguindo uma vida que já não reconhecem como sua. Não porque ainda a desejem, mas porque não sabem o que fazer com tudo o que construíram ao redor dela.

Existe uma espécie de luto nas mudanças que não envolvem uma perda visível. É preciso se despedir de futuros que imaginamos, de versões de nós mesmos que acreditávamos que um dia existiriam, de possibilidades às quais dedicamos tempo sem saber se algum dia se realizariam. Nem toda escolha abandonada foi um erro. Algumas fizeram sentido durante anos e cumpriram seu papel, mesmo que já não tenham lugar no presente. Outras talvez tenham deixado de fazer sentido muito antes de termos coragem de reconhecê-lo. Como saber a diferença? Talvez não exista uma resposta que sirva para todas as situações. Mas vale a pena perguntar se continuamos caminhando porque ainda existe algo vivo naquele desejo ou porque temos medo de descobrir quem seríamos sem ele.

Também é possível se perder tentando evitar qualquer arrependimento. Se permanecer em um caminho pode nos afastar de quem estamos nos tornando, mudar constantemente pode nos impedir de construir qualquer coisa com profundidade. Nem toda dificuldade é um sinal de que escolhemos errado, assim como nem toda vontade de partir significa que precisamos ficar. Há momentos em que precisamos sustentar uma escolha mesmo sem entusiasmo, atravessar a incerteza e aceitar que algumas coisas só ganham forma com o tempo. Em outros, precisamos reconhecer que insistir já não é um gesto de coragem, mas uma maneira de não encarar o que mudou. Talvez a liberdade não esteja em poder abandonar tudo a qualquer momento, mas em conseguir olhar para as próprias escolhas com honestidade, sem transformá-las em prisões nem tratá-las como descartáveis.

O tempo torna tudo isso mais delicado. Enquanto vivemos, raramente sabemos com clareza o significado de uma experiência. Há encontros que parecem passageiros e permanecem conosco por anos; há objetivos que, depois de alcançados, perdem o brilho que tinham em nossa imaginação. Só mais tarde compreendemos o que certas experiências nos ensinaram, o que precisou terminar e o que levamos conosco sem perceber. Isso não torna o passado inútil, nem significa que deveríamos ter feito tudo de outra maneira. Significa apenas que a compreensão também muda, e que talvez não possamos avaliar uma vida inteira a partir daquilo que conseguimos enxergar em um único momento dela.

Talvez construir uma vida com sentido seja menos parecido com executar um projeto e mais parecido com aprender a caminhar por uma paisagem que nunca se revela por completo. Precisamos escolher uma direção, mas também prestar atenção ao que existe ao redor; reconhecer quando vale a pena continuar e quando estamos apenas tentando justificar o caminho percorrido. Podemos ter ambições sem fazer do presente um obstáculo, desejar mudanças sem desprezar o que já temos e sentir gratidão pela vida que existe hoje sem perder a vontade de transformá-la. Uma coisa não precisa anular a outra.

No fim, talvez não seja necessário encontrar uma única resposta para o que estamos fazendo da vida. Podemos construir sentidos ao longo do caminho, por meio do que escolhemos cultivar, das pessoas com quem compartilhamos o tempo e da atenção que dedicamos àquilo que, de outra forma, passaria despercebido. Isso não elimina a incerteza. Continuaremos sem saber se algumas escolhas nos levarão ao lugar que imaginamos, se nossos desejos permanecerão os mesmos ou se, um dia, olharemos para trás e enxergaremos tudo de uma maneira diferente. Mas talvez viver não exija que saibamos antecipadamente o significado de cada passo.

Podemos escolher um caminho sem precisar prometer que nunca o deixaremos. Podemos nos comprometer com aquilo que importa hoje sem exigir que o amanhã repita nossas certezas. E podemos mudar sem tratar tudo o que veio antes como um desperdício. Talvez a questão não seja encontrar o caminho perfeito, mas aprender a perceber quando estamos realmente vivendo aquele que escolhemos.

Se a vida que você está construindo hoje deixar de fazer sentido para quem você se tornar amanhã, o que fará você permanecer: o desejo de continuar ou o medo de recomeçar?

Nicole Menezes Martins

Nicole Menezes Martins, aluna do 3º ano do ensino médio do curso técnico com ênfase em Administração de Empresas da Etec de Novo Horizonte (SP), é orientanda do professor clayton Alexandre Zocarato.

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Sergio Diniz da Costa
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One thought on “Entre o caminho e quem nos tornamos”

  1. Em novo texto reflexivo, Nicole Menezes Martins apresenta uma crônica de altíssimo nível e sensibilidade tocante. Com uma escrita madura e fluida, a autora joga luz sobre uma das maiores angústias da nossa época: a mania de transformarmos o presente em mero intervalo para um futuro idealizado.

    Ao falar sobre o sutil ‘luto’ das escolhas deixadas para trás, Nicole nos lembra de que mudar de rota não é um desperdício, mas um ato de honestidade com quem nos tornamos.

    Um texto brilhante que enriquece nossa seção e nos dá a certeza de que a literatura tem um futuro promissor em mãos!

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