Por Bento Jamba Kawaya Tchongolola — Receção crítica da obra ‘Nasci Homem em Corpo de Mulher’ de Seth Marcelo, analisando seus contrastes sociais e desafios editoriais

Título: Nasci Homem em Corpo de Mulher / Autor: Seth Marcelo; / Editora: Alexa Cultural; / Local de publicação: Embu das Artes, São Paulo, Brasil; Nº de páginas: 179; / País: Brasil. / Autor da receção crítica: Bento Jamba Kawaya Tchongolola. / Nacionalidade: Angolana
Apresentação e apreciação geral
Nasci Homem em Corpo de Mulher, de Seth Marcelo, é uma obra que convida à reflexão sobre questões sociais, políticas e humanas, apresentando situações que remetem para a realidade angolana. Através de personagens com nomes nacionais, o autor aborda dificuldades sociais, desigualdades e relações de poder, oferecendo ao leitor motivos para questionar a sociedade em que vive.
O título desperta curiosidade e cria expectativas sobre o conteúdo. Contudo, a ligação entre ambos não se torna evidente desde o início, demorando a revelar-se ao longo da leitura. Essa distância entre o título e a narrativa pode levar alguns leitores a questionar o rumo da obra. A capa também carece de ser revista, pois, na minha perspetiva, a imagem escolhida não representa claramente o conteúdo narrado. Além disso, o nome do autor não recebe o destaque necessário, podendo passar despercebido. Uma apresentação visual mais adequada poderia despertar maior interesse e valorizar a obra.
Conteúdo e relevância social
Ao longo da narrativa, destaca-se o trajeto do Mwangolé, tendo Tchipopi como personagem principal. A história apresenta as dificuldades que a vida lhe impõe e a forma como estas influenciam o seu percurso. Tchipopi casa-se primeiro com Teresa e posteriormente, com Liz. As relações entre as personagens apresentam diferentes situações da vida, incluindo desafios pessoais e familiares. A obra procura mostrar que, perante as adversidades é possível encontrar formas de mudança e transformação.
Um dos aspetos mais interessantes do livro é a sua capacidade de aproximar o leitor da realidade angolana. Inicialmente, nem sempre é fácil identificar o contexto nacional da narrativa; porém, quando surgem expressões características da linguagem angolana, a leitura torna-se mais familiar e desperta maior interesse. A obra aborda situações que muitos angolanos reconhecem no quotidiano, criando uma sensação de identificação e acolhimento. É como se alguém que nunca conhecemos pessoalmente compreendesse dificuldades que fazem parte da nossa experiência. Esta proximidade constitui uma das qualidades mais relevantes da narrativa.
Entre os temas abordados encontram-se o neocolonialismo, a desigualdade, a escassez, a religião e as relações entre poder e verdade. Algumas passagens apresentam reflexões de carácter filosófico, levando o leitor a questionar a realidade, o comportamento social e a importância de observar antes de falar. A narrativa também permite refletir sobre a forma como a falta de poder pode limitar a voz de determinadas pessoas, cujas verdades nem sempre recebem a devida atenção. Nesse sentido, o livro pode funcionar como um alerta para problemas sociais e políticos que continuam presentes na sociedade angolana. Apesar destas qualidades, considero que a narrativa perde força à medida que avança.
Os assuntos que mais despertam a minha atenção encontram-se sobretudo no início, enquanto algumas partes posteriores se tornam previsíveis para quem acompanha de perto a realidade do país. A repetição de questões políticas e sociais já amplamente discutidas pode diminuir o interesse e tornar a leitura menos envolvente.
Estrutura narrativa e aspectos editoriais
A organização do texto constitui um dos pontos que poderiam ser melhorados. A narrativa desenvolve-se continuamente, sem capítulos titulados ou divisões claramente identificadas. Embora essa possa ter sido uma opção do autor, a ausência de pausas estruturais torna a leitura, em determinados momentos, monótona e pode levar o leitor a perder o interesse. A divisão em capítulos, com títulos adequados, permitiria organizar melhor as ideias e tornar a leitura mais dinâmica.
No domínio da revisão textual, identifiquei algumas falhas que merecem atenção. Nas páginas 77 e 78, existem problemas relacionados com a escrita e a acentuação. Na página 80, há um aspeto de pontuação a corrigir. Na página 160, a palavra «alembamento» aparece escrita incorretamente, devendo ser «alambamento», sem por de parte as páginas 59, 156, 157 , 169 e 174;. Estes exemplos evidenciam a necessidade de uma revisão ortográfica e gramatical mais rigorosa. Outro problema recorrente é o espaçamento duplo entre palavras, observado em grande parte das páginas. Essa irregularidade prejudica a uniformidade visual e demonstra a necessidade de maior cuidado na composição gráfica. A parte final da obra também merece atenção, pois o tipo de letra utilizado na conclusão dificulta a leitura e compromete a apresentação do conteúdo.
A informação biográfica e bibliográfica do autor poderia igualmente ser melhor organizada. Considero que seria mais adequado reservar uma página exclusiva para apresentar as obras de Seth Marcelo, separando-as da biografia.
Dessa forma, os seus livros teriam maior visibilidade e não correriam o risco de passar despercebidos aos leitores interessados. A própria apresentação da biografia poderia ser mais impactante, valorizando melhor o percurso do autor.
Em síntese, Nasci Homem em Corpo de Mulher, apresenta reflexões relevantes sobre a realidade social e política angolana. Destaca-se pela proximidade que estabelece com o leitor e pela abordagem de questões que merecem ser discutidas. A capacidade de despertar identificação e questionamento constitui um dos seus principais méritos. Desta feita, a obra beneficiaria de uma estrutura narrativa mais organizada, de uma revisão textual rigorosa e de melhorias na apresentação gráfica.
A capa, o espaçamento entre palavras, a tipografia da conclusão e a organização da informação sobre o autor são aspetos que merecem ser revistos. A minha apreciação é, portanto, equilibrada: reconheço o valor social e reflexivo da obra, mas considero que existem aspetos narrativos e editoriais que poderiam ser melhorados. Uma maior atenção a esses elementos contribuiria para uma leitura mais fluida, organizada e significativa, permitindo que as ideias do autor chegassem ao leitor com maior clareza e impacto.
Bento Jamba Kawaya Tchongolola

Bento Jamba Kawaya Tchongolola, natural do Município do Lobito e residente no município de Cacuaco, Angola, é bacharel em Filosofia da Religião no Seminário Católico de Benguela (secção Filosófico) e licenciado em Ciências da Educação, na especialidade de Psicologia no Instituto Superior Politécnico de Kangonjo de Angola, Província do Icolo e Bengo,
- Nasci Homem em Corpo de Mulher - 23 de outubro de 2026
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Natural de Sorocaba (SP), é escritor, poeta e Editor-Chefe do Jornal Cultural ROL. Acadêmico Benemérito e Efetivo da FEBACLA; membro fundador da Academia de Letras de São Pedro da Aldeia – ALSPA; Acadêmico Imortal Fundador da Académie Léon-Gontran Damas des Lettres et Arts de la Guyane française; Fundador Imortal del Núcleo de Artes, Ciências e Letras de Assunção|Paraguai e membro da Academia dos Intelectuais e Escritores do Brasil – AIEB. Autor de 8 livros. Jurado de concursos literários. Recebeu, dentre vários titulos: pelo Supremo Consistório Internacional dos Embaixadores da Paz, Embaixador da Paz e Medalha Guardião da Paz e da Justiça; pela Real Ordem dos Cavaleiros Sarmathianos, Benfeitor das Ciências, Letras e Artes; pela FEBACLA: as Comendas: Baluarte da Literatura Nacional; Láurea Acadêmica Qualidade Ouro; Chanceler da Cultura Nacional e Ativista da Cultura Nacional ; pelo Centro Sarmathiano de Altos Estudos Filosóficos e Históricos, Benemérito Pesquisador em Artes e Literatura e Dr. h. c. mult.; Pela Academia de Letras de São Pedro da Aldeia, o Título Honra Acadêmica, pela categoria Cultura Nacional e Belas Artes; Grão-Mestre das Artes; Mestre dos Saberes Luso-Brasileiro; pela Academia dos Intelectuais e Escritores do Brasil – AIEB, Grandes Escritores do Brasil.


Na seção ‘O Leitor Participa’, Bento Jamba Kawaya Tchongolola nos oferece um exemplo primoroso de como deve ser uma resenha literária: honesta, construtiva e cirúrgica.
Ao analisar a obra ‘Nasci Homem em Corpo de Mulher’, de Seth Marcelo, o autor não se limita a elogiar a importante imersão na cultura e nos dilemas políticos de Angola, mas aponta caminhos técnicos — desde a revisão ortográfica do ‘alambamento’ até a paginação — que enriquecem o fazer editorial.
É um texto de imenso valor para leitores e escritores das letras lusófonas. Uma colaboração brilhante para o Jornal ROL!