outubro 23, 2026
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Nasci Homem em Corpo de Mulher

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Por Bento Jamba Kawaya Tchongolola — Receção crítica da obra ‘Nasci Homem em Corpo de Mulher’ de Seth Marcelo, analisando seus contrastes sociais e desafios editoriais

Logotipo da seção O Leitor Participa

Título: Nasci Homem em Corpo de Mulher / Autor: Seth Marcelo; / Editora: Alexa Cultural; / Local de publicação: Embu das Artes, São Paulo, Brasil; Nº de páginas: 179; / País: Brasil. / Autor da receção crítica: Bento Jamba Kawaya Tchongolola. / Nacionalidade: Angolana

Apresentação e apreciação geral

Nasci Homem em Corpo de Mulher, de Seth Marcelo, é uma obra que convida à reflexão sobre questões sociais, políticas e humanas, apresentando situações que remetem para a realidade angolana. Através de personagens com nomes nacionais, o autor aborda dificuldades sociais, desigualdades e relações de poder, oferecendo ao leitor motivos para questionar a sociedade em que vive.

O título desperta curiosidade e cria expectativas sobre o conteúdo. Contudo, a ligação entre ambos não se torna evidente desde o início, demorando a revelar-se ao longo da leitura. Essa distância entre o título e a narrativa pode levar alguns leitores a questionar o rumo da obra. A capa também carece de ser revista, pois, na minha perspetiva, a imagem escolhida não representa claramente o conteúdo narrado. Além disso, o nome do autor não recebe o destaque necessário, podendo passar despercebido. Uma apresentação visual mais adequada poderia despertar maior interesse e valorizar a obra.

Conteúdo e relevância social

Ao longo da narrativa, destaca-se o trajeto do Mwangolé, tendo Tchipopi como personagem principal. A história apresenta as dificuldades que a vida lhe impõe e a forma como estas influenciam o seu percurso. Tchipopi casa-se primeiro com Teresa e posteriormente, com Liz. As relações entre as personagens apresentam diferentes situações da vida, incluindo desafios pessoais e familiares. A obra procura mostrar que, perante as adversidades é possível encontrar formas de mudança e transformação.

Um dos aspetos mais interessantes do livro é a sua capacidade de aproximar o leitor da realidade angolana. Inicialmente, nem sempre é fácil identificar o contexto nacional da narrativa; porém, quando surgem expressões características da linguagem angolana, a leitura torna-se mais familiar e desperta maior interesse. A obra aborda situações que muitos angolanos reconhecem no quotidiano, criando uma sensação de identificação e acolhimento. É como se alguém que nunca conhecemos pessoalmente compreendesse dificuldades que fazem parte da nossa experiência. Esta proximidade constitui uma das qualidades mais relevantes da narrativa.

Entre os temas abordados encontram-se o neocolonialismo, a desigualdade, a escassez, a religião e as relações entre poder e verdade. Algumas passagens apresentam reflexões de carácter filosófico, levando o leitor a questionar a realidade, o comportamento social e a importância de observar antes de falar. A narrativa também permite refletir sobre a forma como a falta de poder pode limitar a voz de determinadas pessoas, cujas verdades nem sempre recebem a devida atenção. Nesse sentido, o livro pode funcionar como um alerta para problemas sociais e políticos que continuam presentes na sociedade angolana. Apesar destas qualidades, considero que a narrativa perde força à medida que avança.

Os assuntos que mais despertam a minha atenção encontram-se sobretudo no início, enquanto algumas partes posteriores se tornam previsíveis para quem acompanha de perto a realidade do país. A repetição de questões políticas e sociais já amplamente discutidas pode diminuir o interesse e tornar a leitura menos envolvente.

Estrutura narrativa e aspectos editoriais

A organização do texto constitui um dos pontos que poderiam ser melhorados. A narrativa desenvolve-se continuamente, sem capítulos titulados ou divisões claramente identificadas. Embora essa possa ter sido uma opção do autor, a ausência de pausas estruturais torna a leitura, em determinados momentos, monótona e pode levar o leitor a perder o interesse. A divisão em capítulos, com títulos adequados, permitiria organizar melhor as ideias e tornar a leitura mais dinâmica.

No domínio da revisão textual, identifiquei algumas falhas que merecem atenção. Nas páginas 77 e 78, existem problemas relacionados com a escrita e a acentuação. Na página 80, há um aspeto de pontuação a corrigir. Na página 160, a palavra «alembamento» aparece escrita incorretamente, devendo ser «alambamento», sem por de parte as páginas 59, 156, 157 , 169 e 174;. Estes exemplos evidenciam a necessidade de uma revisão ortográfica e gramatical mais rigorosa. Outro problema recorrente é o espaçamento duplo entre palavras, observado em grande parte das páginas. Essa irregularidade prejudica a uniformidade visual e demonstra a necessidade de maior cuidado na composição gráfica. A parte final da obra também merece atenção, pois o tipo de letra utilizado na conclusão dificulta a leitura e compromete a apresentação do conteúdo.

A informação biográfica e bibliográfica do autor poderia igualmente ser melhor organizada. Considero que seria mais adequado reservar uma página exclusiva para apresentar as obras de Seth Marcelo, separando-as da biografia.

Dessa forma, os seus livros teriam maior visibilidade e não correriam o risco de passar despercebidos aos leitores interessados. A própria apresentação da biografia poderia ser mais impactante, valorizando melhor o percurso do autor.

Em síntese, Nasci Homem em Corpo de Mulher, apresenta reflexões relevantes sobre a realidade social e política angolana. Destaca-se pela proximidade que estabelece com o leitor e pela abordagem de questões que merecem ser discutidas. A capacidade de despertar identificação e questionamento constitui um dos seus principais méritos. Desta feita, a obra beneficiaria de uma estrutura narrativa mais organizada, de uma revisão textual rigorosa e de melhorias na apresentação gráfica.

A capa, o espaçamento entre palavras, a tipografia da conclusão e a organização da informação sobre o autor são aspetos que merecem ser revistos. A minha apreciação é, portanto, equilibrada: reconheço o valor social e reflexivo da obra, mas considero que existem aspetos narrativos e editoriais que poderiam ser melhorados. Uma maior atenção a esses elementos contribuiria para uma leitura mais fluida, organizada e significativa, permitindo que as ideias do autor chegassem ao leitor com maior clareza e impacto.

Bento Jamba Kawaya Tchongolola

Bento Jamba Kawaya Tchongolola, natural do Município do Lobito e residente no município de Cacuaco, Angola, é bacharel em Filosofia da Religião no Seminário Católico de Benguela (secção Filosófico) e licenciado em Ciências da Educação, na especialidade de Psicologia no Instituto Superior Politécnico de Kangonjo de Angola, Província do Icolo e Bengo,

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Sergio Diniz da Costa
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One thought on “Nasci Homem em Corpo de Mulher”

  1. Na seção ‘O Leitor Participa’, Bento Jamba Kawaya Tchongolola nos oferece um exemplo primoroso de como deve ser uma resenha literária: honesta, construtiva e cirúrgica.

    Ao analisar a obra ‘Nasci Homem em Corpo de Mulher’, de Seth Marcelo, o autor não se limita a elogiar a importante imersão na cultura e nos dilemas políticos de Angola, mas aponta caminhos técnicos — desde a revisão ortográfica do ‘alambamento’ até a paginação — que enriquecem o fazer editorial.

    É um texto de imenso valor para leitores e escritores das letras lusófonas. Uma colaboração brilhante para o Jornal ROL!

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