Nenhum segredo ficará a salvo: Ramos António Amine destranca o silêncio e expõe a farsa do poder na nudez de um poema devastador.

Desta vez ela não olha para as
madeiras.
Olha para a frente,
com os lábios afiados ao
silêncio do cálice,
pronta para destrancar a
boca
e vomitar os nomes, os
cheiros
e a carne que os lençóis
esconderam.
Confessará, primeiro,
o homem que desvastou suas
pernas ao meio
e forjou o ser que ela é
hoje.
Aquele que lhe arrancou a inocência
e a empurrou para o primeiro quarto,
e gemeu a favor da sua ruína
com o cinismo de quem
apluade a exclusão.
Confessará o vício.
O cliente que a penetrou pelo
estômago e pelo útero,
com aquele pau inesquecível,
um músculo feio dentro do corpo
que a esmagava e a preenchia,
fazendo-a esquecer o preço por cada
hora de gemido.
Um vício de fricção de corpos,
de suor indomável,
a única memória onde o seu corpo
não foi usado,
mas incendiado por uma força
que nenhum tempo consegue
curar.
E, logo depois, confessará o
nojo.
O asco profundo que lhe sobe
à garganta
perante os paus dos ricos.
Homens que compram o
mundo com o verbo,
mas que na vergonha da
cama
revelam a miséria da sua
anatomia.
Paus minúsculos,
murchos de arrogância,
paus tortos, gordos,
e finos de pobreza de carne
e de tesão à pílulas
que tenta compensar com
notas encardidas o vazio
de uma masculinidade falhada.
Ela confessa a farsa dessa
gente graúda
que se socorre de estimulantes para
parecer grande,
enquanto a maioria, na sua nudez,
não passa de um
deserto de homens pequenos.
A missão dela começou.
E nenhum segredo ficará a salvo.
Ramos Antonio Amine
- A confissão da prostituta III - 26 de outubro de 2026
- A confissão da prostituta II - 31 de agosto de 2026
- A confissão da prostituta I - 7 de agosto de 2026
Ramos António Amine é moçambicano, formado em Ensino de Filosofia. Lecciona a disciplina de Filosofia em Massangulo, na província do Niassa. Dedica-se à escrita de poesia crítica e de textos literários marcados pela reflexão filosófica e social. Tem textos publicados na revista Uphile. Possui vários artigos científicos publicados no site webartigos.com. É colunista do Jornal Destaque, onde assina artigos de opinião. Produz ainda vídeos de teor poético, nos quais cruza palavra, pensamento e sensibilidade estética. A sua escrita dialoga com os dilemas contemporâneos da sociedade moçambicana.



O poema ‘A confissão da prostituta III’, de Ramos António Amine, é uma obra visceral e de profunda denúncia social que expõe as verdades ocultas da noite e a hipocrisia de clientes e da sociedade. A voz lírica da personagem prepara-se para revelar nomes, cheiros e a farsa de homens poderosos cujas aparências desabam na intimidade.
Este texto de forte potência dramática retrata a reconquista da dignidade através do desabafo e da memória incandescente.