outubro 26, 2026
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A confissão da prostituta III

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Nenhum segredo ficará a salvo: Ramos António Amine destranca o silêncio e expõe a farsa do poder na nudez de um poema devastador.

Ramos António Amine
Ramos António Amine

Desta vez ela não olha para as
madeiras.
Olha para a frente,
com os lábios afiados ao
silêncio do cálice,
pronta para destrancar a
boca
e vomitar os nomes, os
cheiros
e a carne que os lençóis
esconderam.

Confessará, primeiro,
o homem que desvastou suas
pernas ao meio
e forjou o ser que ela é
hoje.

Aquele que lhe arrancou a inocência
e a empurrou para o primeiro quarto,
e gemeu a favor da sua ruína
com o cinismo de quem
apluade a exclusão.

Confessará o vício.
O cliente que a penetrou pelo
estômago e pelo útero,
com aquele pau inesquecível,
um músculo feio dentro do corpo
que a esmagava e a preenchia,
fazendo-a esquecer o preço por cada
hora de gemido.

Um vício de fricção de corpos,
de suor indomável,
a única memória onde o seu corpo
não foi usado,
mas incendiado por uma força
que nenhum tempo consegue
curar.

E, logo depois, confessará o
nojo.
O asco profundo que lhe sobe
à garganta
perante os paus dos ricos.

Homens que compram o
mundo com o verbo,
mas que na vergonha da
cama
revelam a miséria da sua
anatomia.

Paus minúsculos,
murchos de arrogância,
paus tortos, gordos,
e finos de pobreza de carne
e de tesão à pílulas
que tenta compensar com
notas encardidas o vazio
de uma masculinidade falhada.

Ela confessa a farsa dessa
gente graúda
que se socorre de estimulantes para
parecer grande,
enquanto a maioria, na sua nudez,
não passa de um
deserto de homens pequenos.

A missão dela começou.
E nenhum segredo ficará a salvo.

Ramos Antonio Amine

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One thought on “A confissão da prostituta III”

  1. O poema ‘A confissão da prostituta III’, de Ramos António Amine, é uma obra visceral e de profunda denúncia social que expõe as verdades ocultas da noite e a hipocrisia de clientes e da sociedade. A voz lírica da personagem prepara-se para revelar nomes, cheiros e a farsa de homens poderosos cujas aparências desabam na intimidade.

    Este texto de forte potência dramática retrata a reconquista da dignidade através do desabafo e da memória incandescente.

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