Uma misteriosa figura familiar e sua persistente recusa em dividir os retratos do passado


Tia Gertrudes pouco conheci. Quer dizer, ainda guardo lembranças enevoadas daquela figura o quão taciturna pode ser alguém cuja magreza ultrapassasse as parcas carnes. Rabugenta que fosse, continuava da família.
Solteirona, vovó costumava dizer sobre a primogênita. Entretanto, a minha tia se recusava a carregar rótulos impostos pela sociedade, especialmente aqueles reverberados pelos lábios da própria mãe.
— Livre, mamãe. Livre!
— Você nasceu mulher, Gertrudes. Mulheres não são livres, jamais serão. É sina. Melhor que se aprume antes que seja tarde demais.
Minha avó tinha lá suas ideias, a maior parte reproduções do que aprendera, seja nos parcos anos nos bancos escolares, seja nas cacetadas que levou na lida com os homens. Não a culpo nem a eximo, coisas que não vivi por completo.
Talvez o hábito mais marcante de tia Gertrudes fosse a relutância em se deixar fotografar ao lado de quem quer que fosse, inclusive de parentes mais próximos e, em especial, de namorados de ocasião. Certa feita, fui eu o preterido.
— Mas, titia, sou eu, seu sobrinho favorito.
— A gente nunca sabe o dia de amanhã, Marquinhos.
É engraçado quando alguém me visita e eu, quando a prosa é boa, resolvo lhe mostrar alguns álbuns de família. Vez ou outra, um observador mais atento fica intrigado com aquela figura isolada em inúmeros retratos.
— É a tia Gertrudes, irmã de papai.
— E por que ela sempre aparece sozinha?
De vez em quando, sinto que algum espírito brincalhão me baixa e cisma em brincar com as verdades.
— Ah, é que a tia Gertrudes não gostava de ofuscar ninguém com a sua beleza estonteante.
Até hoje, ninguém ousou contrariar a minha resposta, que segue como veredito de um tempo que passou mais rápido do que eu esperava. Dizer que tia Gertrudes pudesse ofuscar alguém com a sua aparência pode parecer um absurdo, e não travo imbróglios desnecessários contestando tal hipótese. O que importa, o que importa de verdade é que ela, apesar de não estar há anos entre nós, continua sendo da família.
Eduardo Cesario-Martínez
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Premiado escritor carioca, atualmente radicado em Porto alegre, cidade pela qual é apaixonado. Seu primeiro livro, o romance ‘Despido de ilusões’, 2004, figurou entre os mais lidos do Centro Cultural Banco do Brasil. Em 2025, foi o vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector, na categoria livro de contos com ’57 Contos e crônicas por um autor muito velho’, que saiu pela Joanin Editora. Seus contos e crônicas, que já ultrapassaram a incrível marca de 1.300 publicações, são utilizados por escolas no Rio de Janeiro, em Brasília e em Brodowski-SP. É dono do Blog do menino Dudu (https://blogdomeninodudu.blogspot.com/).

