outubro 22, 2026
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Meu quintal de infância

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Sergio Diniz da Costa descreve uma emocionante viagem no tempo pelas memórias, cores e aromas de sua meninice

Sergio Diniz da Costa
Sergio Diniz da Costa

Cansado de ser gente grande (que peso!)
decidi virar menino (que alívio!)
Entrei na máquina do tempo, que tem
na minha cabeça, vesti meu calção surrado
desentoquei a camisa pra lá de velha
e fui parar no quintal da infância

Ainda estavam lá a velha mangueira de manga rosa,
os pé de couve, árvores das formiga que
subiam e desciam, indo e vindo do murundum,
o tanque de lavar roupa cheinho de água,
lago onde meus indiozinhos nadavam.

Entrei no porão, ainda rezando pra não encontrá
a Manjaléu*, pavorenta que só ela queria ser
e também rezando pra encontrá os gibi que lá escondia,
feito tesouro que as traça analfabeta não comiam.

Triiiiiimmmmmmmmm!
Ih! O despertador da imaginação soou!
É hora de dar no pé, porque o jardim tá se indo
E o menino tem que voltá pra ser gente grande!

Manjaléu: Bicho-papão ou monstro: Um ser imaginário, frequentemente usado no folclore para assustar ou amedrontar crianças. É também o nome de uma famosa lenda da cultura popular brasileira, recolhida por Sílvio Romero, sobre um monstro invulnerável.

Poema da antologia Manoel de Barros – O Poeta das Miudezas, coorganizado por Verônica Moreira e Sergio Diniz da Costa, 2026

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One thought on “Meu quintal de infância”

  1. Em Meu quintal de infância, Sergio Diniz da Costa nos presenteia com um bilhete de primeira classe para a máquina do tempo mais poderosa que existe: a nossa própria mente. Com uma sensibilidade tocante, o poeta despe-se da armadura pesada da vida adulta — com suas cobranças e despertadores reais — para vestir o calção surrado da inocência. O quintal aqui não é apenas um espaço físico, mas um santuário de liberdade onde pés de couve convivem com o temível Manjaléu e gibis antigos viram tesouros intocados pelo tempo. Uma obra prima nostálgica que nos lembra que, embora o despertador da realidade insista em soar, o menino que fomos jamais deixa de habitar em nós.

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