Na senda do indomável, Pietro Costa liberta o cavalo rubro da poesia contra o caos das horas


Não me detenho
na contagem dos anos.
O tempo, por si, não se explica.
Somamos enganos.
Nem no relâmpago a esbravejar
seu brevíssimo clarão de eternidade,
nem nos insetos que ficam a tramar
a política do ínfimo, da minuciosidade.
Pouco me pesa ou chega a estarrecer
se corvos guerreiam pelo azul do céu
ou se o sol, exausto de cálido, declina
como um deus que aprende a morrer.
Que importa o orvalho e sua poética,
quando a manhã já nasce fatigada?
Ou a ciência, sem assombro e patética,
olvida o espanto primeiro, melindrada?
Sonhei que sonhava o próprio sonho,
nada de estranho e sem merecer alarde:
nossa consciência é um labirinto bisonho
que é reconhecido tarde, bastante tarde.
Mas há um gesto,
um quase nada,
que redime o caos das horas:
o sinal do poeta.
Esse cavalo rubro, indomável,
que irrompe na noite dos homens
e fere o silêncio com sentido.
Ele cavalga
entre a vida e a morte,
sem pedir licença ao medo,
sem dobrar-se à lógica do útil.
E eu,
fugitivo da vida menor,
abandono os muros domesticados,
seus tijolos de cautela e hábito,
para subir,
ofegante e lúcido,
a ladeira do desassossego,
onde o verso não explica:
revela.
Pietro Costa
- Na senda do indomável - 6 de outubro de 2026
- A arte de palavrear - 28 de setembro de 2026
- A arte do inescrutável - 21 de setembro de 2026

Natural de Brasília (DF), é escritor, poeta e Assessor Jurídico de 2ª Instância do MPU (PGJM). Autor de 11 livros, ganhou projeção internacional com O Barco e o Verbo: 10 Anos de Travessia Literária, lançado na London Book Fair 2026, onde recebeu o título Royal Writer of the Year. Seu livro Requintes de Sensibilidade (2025) foi lançado no Salão do Livro de Genebra 2026, ampliando o alcance de sua poesia no cenário europeu. Vencedor do Troféu Clarice Lispector 2024 (SolRidente) e do 1º Concurso Mágico de Oz 2025 (A Matemática da Presença), integrou a delegação brasileira no Festival Internacional de Poesia de Bucareste (2025). Professor de Escrita Criativa, Idealizador e Facilitador do LabVerso: Núcleo de Poéticas Experimentais e Mentoria Literária de Alta Formação, Doutor Honoris Causa Mult., soma mais de 400 participações em coletâneas literárias.


O poema de Pietro Costa é uma belíssima e visceral apologia à liberdade da alma perante o aprisionamento do tempo e das convenções sociais. Ao rejeitar os ‘muros domesticados’ e a ‘lógica do útil’, o eu lírico abraça o desassossego como a única via de lucidez.
A poesia aqui não é mero adorno; é o ‘cavalo rubro’ que rasga a escuridão cotidiana e resgata o espanto original da existência.
Uma obra magistral onde o verso abre mão da explicação para se tornar pura revelação!