outubro 06, 2026
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Na senda do indomável

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Na senda do indomável, Pietro Costa liberta o cavalo rubro da poesia contra o caos das horas

Pietro Costa
Pietro Costa
Imagem gerada pela IA do ChatGPT

Não me detenho
na contagem dos anos.
O tempo, por si, não se explica.
Somamos enganos.

Nem no relâmpago a esbravejar
seu brevíssimo clarão de eternidade,
nem nos insetos que ficam a tramar
a política do ínfimo, da minuciosidade.

Pouco me pesa ou chega a estarrecer
se corvos guerreiam pelo azul do céu
ou se o sol, exausto de cálido, declina
como um deus que aprende a morrer.

Que importa o orvalho e sua poética,
quando a manhã já nasce fatigada?
Ou a ciência, sem assombro e patética,
olvida o espanto primeiro, melindrada?

Sonhei que sonhava o próprio sonho,
nada de estranho e sem merecer alarde:
nossa consciência é um labirinto bisonho
que é reconhecido tarde, bastante tarde.

Mas há um gesto,
um quase nada,
que redime o caos das horas:
o sinal do poeta.

Esse cavalo rubro, indomável,
que irrompe na noite dos homens
e fere o silêncio com sentido.

Ele cavalga
entre a vida e a morte,
sem pedir licença ao medo,
sem dobrar-se à lógica do útil.

E eu,
fugitivo da vida menor,
abandono os muros domesticados,
seus tijolos de cautela e hábito,
para subir,
ofegante e lúcido,
a ladeira do desassossego,
onde o verso não explica:
revela.

Pietro Costa

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One thought on “Na senda do indomável”

  1. O poema de Pietro Costa é uma belíssima e visceral apologia à liberdade da alma perante o aprisionamento do tempo e das convenções sociais. Ao rejeitar os ‘muros domesticados’ e a ‘lógica do útil’, o eu lírico abraça o desassossego como a única via de lucidez.

    A poesia aqui não é mero adorno; é o ‘cavalo rubro’ que rasga a escuridão cotidiana e resgata o espanto original da existência.

    Uma obra magistral onde o verso abre mão da explicação para se tornar pura revelação!

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