María Beatriz Muñoz Ruiz traz uma crítica sincera e corajosa sobre o badalado filme que tenta concluir a obra inacabada de Federico García Lorca


Três dias lutei para decidir se me atrevia a dar a minha opinião sobre La bola negra (A Bola Negra); três dias demorei para me arriscar a que o peso do ódio caísse sobre mim se escrevesse o que penso.
Se esperam um artigo sobre política, podem parar de ler agora mesmo; deixei muito claro que não acredito na política nem nos políticos. O que eu realmente amo é a história, a poesia e a literatura. Também sempre disse que o cinema e a música me parecem essenciais e belos, uma forma de arte que faz você sonhar e sentir.
Bem, uma vez contextualizados, gostaria de esclarecer que sou granadina e amo a poesia de Lorca; talvez por isso eu tenha colocado expectativas altas demais em La bola negra. As pessoas diziam que era o melhor filme que tinham visto em muito tempo, saíam chorando do cinema e até repetiam a experiência. Tinha tudo o que um filme precisa ter para dar vontade de assistir, e o meu ponto extra é que gosto dos Javis [diretores espanhóis] e tinha fé de que eles tinham feito um bom trabalho.
Antes de assistir, pareceu-me arriscada a ideia dos Javis de terminar a obra inacabada de Lorca, um grande das letras, um mestre da literatura. Mas, se alguém se atreve, é porque se vê capaz de continuar uma grande obra — fato que, do meu ponto de vista, eles não alcançaram: camuflaram um trabalho literário medíocre com outras duas histórias. Mas o pior de tudo é que atribuem esse trabalho a Lorca; e eu já sei que não pretenderam enganar ninguém e sempre esclareceram que se trata de uma continuidade fictícia da obra de Federico. No entanto, se desmembrarmos as três histórias do filme e as analisarmos separadamente, poderíamos resumir no fato de que Carlos, o protagonista da história de Lorca, vai duas vezes ao cassino para se submeter a uma votação e ver se o admitem como membro. Não vou contar mais para não dar muito spoiler, mas, convenhamos, também não havia muito mais para contar.
Haverá quem diga que sou estúpida e não entendi a essência da história; pode ser verdade, porque entendo que nas quatro páginas que Lorca deixou escritas ele desejava transmitir o quão socialmente inaceitável era a homossexualidade, mas nunca saberemos como teria desenvolvido a história de Carlos. E estou segura de que, se a tivesse terminado, duvido que fosse tão breve e simplista como a que os Javis contaram.
Também entendo que, como não tinham conteúdo suficiente com a história de Lorca, tiveram que criar mais duas histórias sem muita substância. Isso é como comprar uma camiseta sem graça e, para que fique bonita, ter que combiná-la com outras duas peças ainda mais sem graça. Mas, olhe, cinematograficamente me parece uma colcha de retalhos magnífica e acho que funciona bem; havia planos muito bem conseguidos e cenas que davam pinceladas do que foi a Guerra Civil Espanhola. Digo pinceladas porque o tema da guerra foi tratado como quem pisa na ponta dos pés para não acordar o cachorro dos vizinhos, e é uma pena, porque poderiam ter contado muito mais. Todas as guerras são ruins e todos os que morrem são marionetes nas mãos de pessoas que buscam poder e dinheiro. Há histórias da guerra que fariam qualquer um chorar, histórias contadas pelos nossos mais velhos, aquelas histórias que não se encontram em livros didáticos. Mas também há poucas pessoas que têm tempo de sentar ao lado deles e escutar essas histórias. Os irmãos da minha avó, por circunstâncias com as quais não vou entediar vocês agora contando, lutaram em ambos os lados, uns contra os outros, com o medo de que em algum daqueles ataques pudessem se matar entre si. E como esse exemplo existem muitos. Entendo que os Javis quiseram fazer este filme baseando-se na homossexualidade, mas também sou da opinião de que poderiam ter sido mais elegantes em seu propósito.
Na metade do filme, cansei de ver homens nus tomando banho, para não dizer que as actrizes brilharam pela ausência. Bem, a que brilhou em uma cena que me pareceu eterna foi Penélope Cruz, uma cena excessivamente longa e sem sentido que sobrou no filme; talvez por isso quase não mostraram a cidade natal de Lorca: Granada, minha Granada, a bela e querida Granada de Lorca, aquela que ele amou em cada verso, de onde era e para onde sempre voltava. Essa Granada que os Javis decidiram passar de raspão e não mostrar ao mundo.
Sinto muito, não gostei de nenhuma das três histórias, fiquei mortalmente entediada, só queria que o filme terminasse; se assisti até o final foi porque tinha fé de que daria uma reviravolta magistral e me faria chorar as pitangas, como eu via nos vídeos do TikTok.
A música é boa e a composição cinematográfica também, mas foram duas horas e meia da minha vida perdidas. Eu acho que vi outro filme, diferente daquele que as pessoas viam; me deu vontade de pedir que me dessem a mesma pipoca que deram a eles. Saí com meus lenços intactos e me sentindo marginalizada em meio a tanta emoção e euforia das pessoas.
Portanto, não me deem tanto crédito e vão assistir; afinal de contas, sou apenas um grão de areia no deserto, alguém que saiu do cinema frustrada por não experimentar o êxtase dos outros. Desejo-lhes muito sucesso e me alegra que tenham feito tanta gente sentir o que quer que seja.
María Beatriz Muñoz Ruiz
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Natural de Granada (Espanha), profissionalmente é formada em Educação Infantil e Psicologia Infantil, com especialização em autismo, pela Universidade de Valência e é graduada pela Universidade de Madri como Assistente Psiquiátrica e Auxiliar de Enfermagem, conciliando a formação acadêmica com o trabalho na indústria da moda para uma grande marca. Também é Gerente de Comunidades, possuindo formação em Marketing Digital. Na seara literária, é romancista e poetisa, sendo que, quando deseja ir além de sua persona romântica estereotipada, escreve sob o pseudônimo La Dama Oscura (A Dama Negra), um pseudônimo que lhe permitiu revelar um lado até então desconhecido de si mesma aos seus leitores. Autora de 14 romances e 9 coletâneas de poesia. É Diretora da revista cultural One Stop, tendo recebido o Prêmio César Vallejo de Excelência nas Artes de 2023 por sua longa e distinta carreira na área. Colunista internacional de vários jornais e revistas nacionais e internacionais, dentre eles: El Sol de Colombia, El Sol de las Américas (República Dominicana), El Postantillano (Porto Rico), Panamá Poético (Panamá), La Prensa (Nicarágua), NC Latina Magazine (Carolina do Norte, EUA), Plumas Libres, Desde Puebla (México) e Posdata Digital (Argentina).


O texto de María Beatriz Muñoz Ruiz destaca-se por três pilares fundamentais que enriquecem o debate cultural no Jornal ROL:
1. A Coragem da Dissidência Cultural: A autora inicia o texto revelando o “medo do ódio” por três dias. Isso estabelece uma conexão imediata e empática com o leitor. Em uma era de linchamentos virtuais, expressar que não gostou de um fenômeno aclamado pelo TikTok e pela crítica de massa é um ato de coragem jornalística e independência intelectual.
2. O Rigor Literário vs. Apelo Comercial: A análise desconstrói a estrutura do filme com propriedade. Ao usar a analogia da “camiseta sem graça combinada com outras peças ainda mais sem graça”, ela expõe o vazio de roteiro que tentou se sustentar apenas no nome de Lorca e no apelo visual (como a nudez excessiva e a ponta desnecessária de Penélope Cruz), negligenciando o desenvolvimento profundo do tema e ignorando a própria cidade de Granada.
3. Contraste Geracional e Histórico: O ponto mais alto da sensibilidade do texto ocorre quando ela contrasta a superficialidade do filme com as histórias reais da Guerra Civil Espanhola contadas por seus avós (onde irmãos lutaram em lados opostos). Ao fazer isso, ela eleva a crônica de uma simples “crítica de cinema” para uma reflexão profunda sobre como a arte contemporânea, às vezes, perde a oportunidade de tocar o verdadeiro coração da história humana em prol de fórmulas vazias.
É um texto provocativo, humano e essencial para quem gosta de debater arte sem amarras!