Dr. h. c. mult. Alexandre Rurikovich Carvalho
A Fundação da Academia Amapaense de Ciências: Um novo Capítulo na História da Produção Científica Amazônica


RESUMO
A fundação da Academia Amapaense de Ciências (AAC) representa um importante marco no processo de consolidação da ciência, da tecnologia e da inovação no Estado do Amapá. A criação da instituição ocorre após décadas de expansão das atividades de pesquisa, ensino superior e pós-graduação stricto sensu, impulsionada de forma decisiva pela atuação articulada de pesquisadores vinculados às cinco instituições de ensino e pesquisa que deram origem à Academia: a Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), a Universidade Estadual do Amapá (UEAP), o Instituto Federal do Amapá (IFAP), a Embrapa Amapá e o Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA).
Este artigo apresenta uma reflexão histórica e institucional sobre a importância de uma academia científica para a sociedade, destacando suas contribuições para a produção e difusão do conhecimento, a formação de novas gerações de pesquisadores, a preservação da memória científica, a interdisciplinaridade e o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Analisa também a visão do Presidente Fundador, Dr. Jadson Luís Rebelo Porto, particularmente sua proposta de construção de uma memória científica institucional por meio de uma série de coleções literárias do silogeu e sua reflexão acerca da possibilidade de constituição de uma Escola Científica Amapaense. O estudo procura demonstrar que a Academia nasce não como ponto inicial da ciência amapaense, mas como expressão institucional de um processo de amadurecimento científico construído coletivamente ao longo de décadas.
Palavras-chave: Academia Amapaense de Ciências; Amapá; Amazônia; Memória Científica; Escola Científica Amapaense.
1. INTRODUÇÃO E MANIFESTAÇÃO INSTITUCIONAL
Existem momentos na história de uma sociedade em que o nascimento de uma instituição ultrapassa os limites de sua própria criação. São momentos em que uma iniciativa institucional passa a representar a maturidade alcançada por uma comunidade, a síntese de uma trajetória construída ao longo de décadas e, simultaneamente, a abertura de um novo ciclo histórico. A fundação da Academia Amapaense de Ciências (AAC) pode ser compreendida sob essa perspectiva. Mais do que a criação de uma entidade destinada a reunir pesquisadores, cientistas e intelectuais, a Academia representa a expressão institucional de um processo de amadurecimento da ciência produzida no Estado do Amapá. Sua existência dá visibilidade a uma comunidade científica que se formou progressivamente, criou raízes, estabeleceu linhas de pesquisa, formou mestres e doutores e passou a produzir conhecimento sobre questões fundamentais para o próprio Amapá, para a Amazônia e para o Brasil.
A ciência, afinal, não pertence exclusivamente aos laboratórios, às universidades ou aos institutos de pesquisa; ela pertence à sociedade. Quando um pesquisador desenvolve uma nova técnica, identifica uma espécie, investiga uma doença, estuda os efeitos das mudanças climáticas, aperfeiçoa uma tecnologia, pesquisa o território, analisa os processos sociais ou desenvolve mecanismos de conservação ambiental, sua produção intelectual ultrapassa os limites de sua carreira acadêmica: o conhecimento produzido passa a integrar o patrimônio coletivo. É nesse sentido que a criação de uma academia científica assume importância especial, pois organiza, reconhece, preserva e projeta uma determinada tradição de produção do conhecimento. No caso do Amapá, essa tradição possui características particularmente relevantes porque está inserida em uma região cuja realidade ambiental, social, cultural e territorial desperta interesse científico nacional e internacional. A AAC surge em um momento histórico significativo: quando a produção científica amapaense demonstra sinais concretos de maturidade e quando os grandes desafios contemporâneos exigem cada vez mais conhecimento produzido a partir da própria realidade amazônica.
Como historiador, pesquisador e dirigente de instituição dedicada à promoção da cultura, da educação e do conhecimento, registro publicamente meu apoio à fundação da Academia Amapaense de Ciências. Faço-o porque acredito que uma sociedade que valoriza seus cientistas valoriza seu próprio futuro. A criação da Academia representa o reconhecimento de que o Amapá possui uma comunidade científica amadurecida, formada por pesquisadores que há décadas trabalham na produção de conhecimento, na formação de recursos humanos e no desenvolvimento das instituições de ensino e pesquisa. É igualmente justo reconhecer a iniciativa do Presidente Fundador, Dr. Jadson Luís Rebelo Porto, cuja proposta procura transformar essa maturidade científica em uma instituição capaz de preservar a memória, estimular novas gerações e fortalecer a identidade científica do Estado. Também devem ser reconhecidos os demais fundadores, que aceitaram compartilhar essa responsabilidade histórica como primeiros guardiões de uma instituição que pertence, desde sua origem, à comunidade científica e à sociedade amapaense.
2. EPISTEMOLOGIA E HISTÓRIA DAS ACADEMIAS CIENTÍFICAS
A história demonstra que o desenvolvimento das sociedades está profundamente relacionado à capacidade de produzir, organizar, transmitir e aplicar conhecimentos. A ciência permitiu ao ser humano compreender fenômenos naturais, desenvolver medicamentos, ampliar a produção de alimentos, aperfeiçoar sistemas de comunicação, criar tecnologias, compreender o clima e desenvolver instrumentos capazes de transformar radicalmente a vida cotidiana. Entretanto, ciência não significa apenas tecnologia. A pesquisa científica também produz conhecimento sobre o ser humano, suas relações sociais, sua história, sua cultura, sua organização política, seu patrimônio e suas diferentes formas de compreender o mundo. Por essa razão, uma academia científica não deve ser compreendida como uma instituição restrita às ciências exatas ou naturais. A ciência contemporânea é plural, biologia, medicina, física, química, matemática, engenharia, geografia, história, antropologia, sociologia, economia, educação, direito e saúde pública estabelecem conexões interdisciplinares para responder a problemas complexos.
A ideia de reunir estudiosos para compartilhar descobertas e preservar conhecimentos possui raízes profundas. Durante as Revoluções Científicas dos séculos XVI e XVII, novas formas de investigação modificaram a relação entre o conhecimento e a observação da realidade. Um marco importante foi a Accademia dei Lincei, fundada em Roma em 1603. Posteriormente, em 1660, surgiu a Royal Society em Londres, que em 1665 iniciou a publicação das Philosophical Transactions, periódico divisor de águas na comunicação científica. Seu lema, Nullius in verba, expressa a recusa em aceitar afirmações baseadas unicamente na autoridade. Em 1666, fundava-se a Académie des Sciences na França. Esses exemplos demonstram que as grandes academias foram concebidas não como espaços de celebração passiva, mas como centros vivos de produção, validação, difusão e aplicação do conhecimento.
Com a passagem da modernidade para a sociedade do conhecimento, a ciência tornou-se especializada, profissionalizada e integrada a redes globais de universidades e laboratórios. No Brasil, a institucionalização do saber científico deu um passo decisivo em 3 de maio de 1916 com a fundação da Sociedade Brasileira de Sciencias, atual Academia Brasileira de Ciências (ABC). Surgida a partir do diálogo entre docentes da Escola Politécnica e pesquisadores do Museu Nacional, Observatório Nacional e Instituto de Manguinhos, a ABC consolidou-se como ponte entre o saber acadêmico e o bem-estar social, bem como foi a referência inspiradora para a criação da AAC. Em nossa época caracterizada tanto pela circulação acelerada de informações quanto pelo desafio do negacionismo, as instituições científicas assumem o compromisso ético e humanista de cultivar a cultura científica, promover o pensamento crítico e colocar a inovação a serviço da melhoria concreta da vida humana.
3. A ECOLOGIA INSTITUCIONAL E A FORMAÇÃO DA MASSA CRÍTICA CIENTÍFICA NO AMAPÁ
Falar da Academia Amapaense de Ciências significa necessariamente falar da Amazônia. A região apresenta desafios que dificilmente podem ser enfrentados sem pesquisa científica endógena e de alta qualidade. Biodiversidade, mudanças climáticas, recursos hídricos, saúde pública, bioeconomia, infraestrutura e dinâmicas sociais constituem campos em que o saber científico local é indispensável. A ciência amazônica não é uma ciência periférica: suas pesquisas abordam temas de interesse planetário, como a regulação do clima, a conservação ambiental e a riqueza de seus ecossistemas.
É nesse contexto que o documento institucional de apresentação da AAC ganha especial relevância ao registrar a matriz institucional do ecossistema científico do Amapá. A Academia não surge de maneira isolada ou abstrata, mas como resultado direto do amadurecimento e da sinergia entre as cinco instituições que deram origem à instituição:
• Universidade Federal do Amapá (UNIFAP): Pilar fundamental na expansão da educação superior, no desenvolvimento da pesquisa acadêmica e na consolidação dos primeiros programas de pós-graduação stricto sensu no Estado;
• Universidade Estadual do Amapá (UEAP): Indutora estratégica da formação docente, da pesquisa aplicada e da inovação tecnológica voltada para as demandas territoriais e sociais do Amapá;
• Instituto Federal do Amapá (IFAP): Agente decisivo no ensino técnico, na pesquisa aplicada e no desenvolvimento de soluções tecnológicas e de extensão no interior do Estado;
• Embrapa Amapá: Referência histórica em pesquisa agropecuária, manejo florestal, conservação ambiental e desenvolvimento de tecnologias para a bioeconomia amazônica;
• Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA): Centro pioneiro na investigação da biodiversidade, do patrimônio sociocultural e do conhecimento aplicado ao meio ambiente amapaense.
O documento fundador destaca o ano de 2006 como um marco temporal estratégico nessa trajetória. Ao longo das duas décadas que antecederam o marco de 2026, a atuação conjunta dessas instituições impulsionou uma expansão sem precedentes na pós-graduação stricto sensu, com a criação de programas de mestrado e doutorado voltados ao desenvolvimento regional, direito ambiental, ciências da saúde, ciências agrárias, políticas públicas e biodiversidade. Esses vinte anos de investimentos contínuos na formação de recursos humanos geraram a massa crítica de mestres, doutores, grupos de pesquisa e docentes titulares necessária para sustentar uma instituição do porte da AAC. A Academia surge para cumprir uma função complementar e agregadora, unindo pesquisadores dessas cinco instituições fundantes em torno da valorização da ciência, da atração de novas gerações e do diálogo permanente com as políticas públicas.
4. MEMÓRIA, GENEALOGIA E A “ESCOLA CIENTÍFICA AMAPAENSE”
Toda instituição traz em sua gênese a marca de lideranças que transformam ideias em realidade. Na Academia Amapaense de Ciências, essa liderança está associada ao seu Presidente Fundador, Dr. Jadson Luís Rebelo Porto. A análise do projeto revela uma interpretação historiográfica apurada do desenvolvimento científico regional, em que os pesquisadores são compreendidos como construtores de uma tradição intelectual viva.
Um dos pilares mais inovadores da proposta do Presidente Fundador é a criação de Coleções Literária da Academia Amapaense de Ciências. A iniciativa fundamenta-se no princípio de que não há futuro científico sem preservação da memória. Ao valorizar o memorial acadêmico — documento em que o professor titular e pesquisador sistematiza suas contribuições para o ensino, a pesquisa e a extensão, as Coleções transformam trajetórias individuais em patrimônio público. Vinculado a essa perspectiva está o conceito de “genealogia científica” ou “árvore genealógica intelectual”, metáfora que retrata os laços que se formam entre orientadores e orientandos ao longo de gerações de mestres e doutores.
A partir desse amadurecimento coletivo e genuinamente multinstitucional, congregando o corpo docente e os pesquisadores da UNIFAP, UEAP, IFAP, Embrapa Amapá e IEPA, emerge a hipótese formulada pelo Presidente Fundador sobre a existência de uma Escola Científica Amapaense. Uma escola científica não se reduz a limites físicos ou a uma única universidade: ela representa uma comunidade de pensamento com problemas de pesquisa compartilhados, metodologias próprias e um compromisso duradouro com o território amazônico. Os fundadores da AAC assumem, assim, a responsabilidade de figurar como arquitetos dessa tradição, legando às próximas décadas o registro de como o Amapá organizou institucionalmente seu saber, em uma nova fase de construção científica amapaense: a Fase de Ciências, Tecnologias, Inovações e Pós-Graduação (CTI&PG) (Porto, 2026).
5. IMPACTO SOCIAL, INTERDISCIPLINARIDADE E SOBERANIA AMAZÔNICA
A atuação da Academia Amapaense de Ciências estende-se para além dos muros acadêmicos. No âmbito educacional, a AAC pode atuar como agente inspirador para a juventude da educação básica, promovendo a divulgação científica, olimpíadas de conhecimento, debates e aproximação entre estudantes e cientistas locais. No campo econômico e social, a ciência produzida nas universidades e institutos de pesquisa do Estado é a base para o desenvolvimento sustentável; para o fortalecimento da bioeconomia, gerando emprego e renda sem destruir os ecossistemas e; transformações da sociedade decorrente da geração de conhecimento, tecnologias e massas críticas amapaenses e amazônicas.
A complexidade da Amazônia exige também uma postura profundamente interdisciplinar. Soluções para os grandes dilemas regionais requerem a integração das ciências biológicas, humanas, exatas, agrárias e tecnológicas. Além disso, a ciência acadêmica deve dialogar com os conhecimentos tradicionais dos povos indígenas e das comunidades ribeirinhas e quilombolas, construindo pontes éticas entre a pesquisa científica formal e os saberes ancestrais.
No plano geopolítico, produzir ciência na e sobre a Amazônia é um exercício inequívoco de soberania nacional. Um país que não gera conhecimento sobre seus próprios recursos, território e população permanece dependente de diagnósticos externos. O fortalecimento da ciência amapaense, por meio da união de suas cinco grandes instituições de pesquisa, contribui diretamente para a consolidação de redes internacionais de cooperação científica, nas quais o Amapá participa não como mero objeto de estudo, ou ator coadjuvante científico, mas como polo ativo de produção e geração de conhecimento reconhecido globalmente.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
As grandes instituições não nascem apenas para responder às necessidades do presente: elas são construídas para dialogar com o futuro. A Academia Amapaense de Ciências nasce exatamente sob essa perspectiva. Sua criação representa a consolidação de uma trajetória científica construída ao longo de décadas por pesquisadores, professores, universidades, institutos federais e estaduais e centros de pesquisa agropecuária e científica. O documento memorial da Academia apresenta o Amapá como um território que, embora tenha iniciado mais tardiamente sua expansão científica institucional, alcançou um importante processo de amadurecimento e formação de massa crítica, fruto do trabalho dedicado na UNIFAP, UEAP, IFAP, Embrapa Amapá e IEPA, estabelecendo os fundamentos sólidos para a consolidação de uma verdadeira Escola Científica Amapaense.
Se a ciência é uma árvore, suas raízes encontram-se na memória; seu tronco é formado pelas instituições; seus galhos são as diferentes áreas do conhecimento; seus frutos são as descobertas, tecnologias, livros e soluções produzidas; e suas sementes são os jovens pesquisadores que darão continuidade a essa obra. A Academia Amapaense de Ciências chega para organizar essa árvore, registrar sua história e favorecer seu crescimento contínuo.
Que a AAC seja uma casa aberta ao conhecimento, que valorize a excelência sem perder a dimensão humana, que estimule a pesquisa sem esquecer sua responsabilidade social, que preserve a memória sem permanecer presa ao passado e que dialogue com o mundo sem perder sua identidade amazônica. A fundação da Academia Amapaense de Ciências é a afirmação de que o conhecimento produzido na Amazônia possui valor universal, a celebração daqueles que dedicaram suas vidas à ciência e, sobretudo, uma aposta convicta no futuro.
REFERÊNCIAS
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Alexandre da Silva Camêlo Rurikovich Carvalho, natural de Nova Iguaçu (RJ). Construiu sólida trajetória acadêmica e intelectual, sendo licenciado em História e Filosofia, tecnólogo em Eventos e bacharel em Direitos Humanos, com ênfase em Ciências Sociais. Possui formação em nível de pós-graduação nas áreas de História do Brasil, História Antiga e Medieval, Filosofia, Ciências Políticas, Ciências da Religião, Jornalismo, Docência do Ensino Superior, Produção Cultural e Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural, entre outras. É colunista do jornal cultural ROL Foi reconhecido por Notório Saber em Filosofia pelo Instituto Universitas Ecclesiae do Brasil. Detentor de centenas de títulos honoríficos, medalhas e condecorações concedidas por instituições nacionais e internacionais, é também detentor de 30 títulos Doutor Honoris Causa. É Doctor of Humane Letters pela Logos University International (UNILOGOS) e Doctor of Philosophy in Peace pela International University of Higher Martial Arts Education. Atua como Agente de Representação Diplomática Dinástico-Cultural, com status de Embaixador Honorário da Organização Internacional de Diplomacia Cultural. Exerce a presidência da Federação Brasileira dos Acadêmicos das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA) e é Diretor do Centro Sarmathiano de Altos Estudos Filosóficos e Históricos. Registros Profissionais: Historiador – MTE 0001072/RJ Jornalista – MTE 0039605/RJ


Abrindo a nossa bancada ROLiana de hoje, o brilhante artigo de Dom Alexandre Rurikovich Carvalho sobre a recém-fundada Academia Amapaense de Ciências (AAC).
Mais do que o registro de um nascimento, o texto nos mostra o amadurecimento histórico de um Amapá que pesquisa, produz e preserva. Destaco a feliz convergência de forças entre as cinco instituições fundadoras e a belíssima visão do presidente, Dr. Jadson Luís Rebelo Porto, focado em eternizar a memória local e pavimentar o caminho para uma legítima Escola Científica Amapaense.
Um marco para a ciência e um orgulho para o desenvolvimento sustentável da nossa Amazônia.
Uma leitura indispensável!