novembro 05, 2026
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Entre a bandeira e o abraço

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A política partidária, a solidão ideológica e a necessidade de reencontrar a humanidade

Clayton Alexandre Zocarato
Clayton Alexandre Zocarato
Em primeiro plano e ao centro, um homem com camisa vermelha está de costas e abraça outro com camisa azul, no pátio do Congresso Nacional. O homem de vermelho segura a bandeira do Brasil na mão. No fundo, outras pessoas observam os dois, e algumas delas seguram cartazes brancos e em branco. Ao fundo, está o prédio do Congresso Nacional de Brasília. É fim de tarde, o céu tem tons de amarelo perto do horizonte e de azul no topo.
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A política talvez seja uma das manifestações mais contraditórias da existência humana, pois nasceu da necessidade de organizar a convivência coletiva, mas, em determinadas circunstâncias, transforma-se em instrumento de distanciamento entre aqueles que deveriam compartilhar o mesmo espaço social.

            Existe uma ironia quase trágica no fato de que o ser humano, ao desenvolver mecanismos para representar suas ideias, acaba frequentemente utilizando essas mesmas ideias como justificativa para romper amizades, enfraquecer relações familiares, construir inimizades e estabelecer fronteiras invisíveis entre pessoas que, antes de reconhecerem suas diferenças, conseguiam simplesmente reconhecer umas às outras. A política, quando deixa de ser uma possibilidade de diálogo e passa a funcionar como uma espécie de religião partidária, abandona sua finalidade pública e invade perigosamente os territórios mais íntimos da existência.

            O problema não está necessariamente em possuir uma posição ideológica, defender determinado projeto de sociedade ou acreditar em uma liderança política, mas em transformar essas convicções em instrumentos de classificação moral, como se a dignidade humana pudesse ser medida pela quantidade de afinidade que alguém demonstra em relação a determinado partido.

            A democracia deveria ser compreendida como uma construção permanente de divergências, e não como uma competição pela eliminação simbólica daqueles que pensam diferentemente. Entretanto, observa-se que parte da sociedade brasileira passou a experimentar a política como uma espécie de extensão das rivalidades esportivas, nas quais a vitória de um lado representa a humilhação do outro. As cores, os números, os discursos e os símbolos partidários assumem dimensões quase afetivas, chegando a ocupar espaços que anteriormente pertenciam à amizade, à solidariedade e à convivência familiar.

            O indivíduo deixa de conversar com outro indivíduo e passa a conversar com uma representação imaginária de seu adversário. Não se escuta mais o argumento, procura-se descobrir a qual campo pertence aquele que fala.

            A palavra perde sua capacidade de aproximar e transforma-se em munição; a conversa deixa de ser encontro e converte-se em julgamento. Nesse cenário, a política já não se encontra apenas nos parlamentos, nas eleições ou nas instituições públicas, mas senta-se à mesa do almoço de domingo, atravessa os corredores das empresas, interfere nas relações amorosas e, muitas vezes, determina quem merece ou não receber consideração.

            Aristóteles, ao compreender o ser humano como um animal político, demonstrava que a vida coletiva não constitui um elemento secundário da existência, mas uma dimensão fundamental da própria humanidade.

            A política, nesse sentido, deveria representar a possibilidade de construir uma comunidade na qual as diferenças fossem administradas pela razão e pela busca do bem comum. Contudo, existe uma distância considerável entre a concepção aristotélica de comunidade e determinadas práticas contemporâneas de militância partidária, especialmente quando a fidelidade a uma legenda se sobrepõe à responsabilidade de reconhecer o outro como sujeito.

            O cidadão passa a defender menos uma ideia e mais uma identidade coletiva, mesmo quando essa identidade contradiz os princípios que anteriormente dizia defender. É como se a consciência individual fosse substituída por uma espécie de consciência terceirizada, na qual pensar se torna menos importante do que repetir, questionar menos conveniente do que obedecer e reconhecer um equívoco mais doloroso do que admitir que o adversário possa estar parcialmente correto.

            Thomas Hobbes, ao refletir sobre o conflito e a necessidade de organização da sociedade, oferece elementos para compreender como o medo e a desconfiança podem comprometer a convivência humana. Entretanto, na sociedade contemporânea, não é necessário que exista uma guerra efetiva para que as pessoas experimentem relações de hostilidade.

             Basta que se estabeleça uma atmosfera permanente de suspeita, na qual qualquer manifestação de pensamento seja interpretada como provocação. O vizinho passa a ser observado como adversário em potencial, o colega de trabalho transforma-se em representante de uma ideologia considerada perigosa e até mesmo os vínculos familiares são submetidos a uma espécie de fiscalização doutrinária.

            O sujeito já não pergunta como o outro está, mas em quem ele votou. E talvez resida nessa inversão uma das manifestações mais preocupantes da pobreza política contemporânea: a incapacidade de reconhecer a humanidade antes de reconhecer a ideologia.

            O bipartidarismo, quando compreendido como uma estrutura de polarização permanente entre dois grandes campos políticos, pode contribuir para a redução da complexidade social a uma oposição simplificada.

            Não significa que a existência de dois partidos ou dois grandes agrupamentos seja, por si mesma, incompatível com a democracia.

            O problema surge quando a sociedade passa a acreditar que somente existem duas possibilidades legítimas de interpretação da realidade, como se todo pensamento precisasse obrigatoriamente escolher um dos lados de uma trincheira. A diversidade de experiências, necessidades, interesses e concepções filosóficas acaba comprimida em uma espécie de corredor estreito, no qual a liberdade de pensar é substituída pela obrigação de escolher.

             O mundo, que é composto por inúmeras contradições, passa a ser apresentado como uma disputa entre duas verdades absolutas.    A política transforma-se, então, em uma matemática emocional de vencedores e derrotados, na qual a possibilidade de construir consensos parece representar uma espécie de traição.

            Hannah Arendt, ao refletir sobre a pluralidade humana e a importância do espaço público, permite compreender que a política somente encontra sentido quando diferentes pessoas podem aparecer, falar e agir diante das outras. A pluralidade não representa um obstáculo à política; representa sua própria condição de existência.

            Uma sociedade na qual todos pensassem exatamente da mesma maneira talvez fosse silenciosa, mas dificilmente seria verdadeiramente democrática. O perigo começa quando a diferença deixa de ser reconhecida como parte da experiência coletiva e passa a ser interpretada como uma ameaça à existência do grupo. Nesse momento, o adversário político deixa de ser alguém com quem se disputa um projeto de sociedade e passa a ser alguém cuja presença se deseja eliminar do horizonte das relações humanas.        A democracia não pode sobreviver indefinidamente alimentada pelo ressentimento, porque uma comunidade não se constrói apenas pela vitória eleitoral de seus representantes, mas pela capacidade cotidiana de seus cidadãos continuarem convivendo depois que as urnas são fechadas.

            A música brasileira oferece algumas das mais profundas manifestações dessa inquietação. Durante a ditadura militar, artistas utilizaram a composição musical como instrumento de resistência, denúncia e preservação da consciência coletiva. Em Apesar de Você, Chico Buarque construiu uma crítica contundente ao autoritarismo por meio de uma linguagem aparentemente cotidiana, na qual a esperança se apresenta como uma força capaz de sobreviver à opressão. Em Cálice, parceria de Chico Buarque e Gilberto Gil, a metáfora da palavra impedida de circular transforma-se em denúncia de uma sociedade na qual o silêncio era imposto como condição de sobrevivência. A canção não era simplesmente uma manifestação contra determinado governo, mas uma defesa do direito de falar, existir e questionar.

            Existe uma diferença fundamental entre utilizar a música para despertar consciências e utilizá-la para reafirmar hostilidades partidárias: no primeiro caso, a arte amplia o horizonte humano; no segundo, corre o risco de se transformar em mais um instrumento de segregação.

            Também em Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré, encontramos uma manifestação artística que ultrapassa a circunstância política de sua criação. A canção tornou-se um símbolo de mobilização e resistência, sobretudo porque sua mensagem não se limitava à identificação de um inimigo, mas convocava as pessoas a reconhecerem sua capacidade de participação histórica. A caminhada coletiva evocada pela composição possui uma dimensão filosófica que permanece atual: ninguém transforma verdadeiramente a realidade permanecendo indiferente ao sofrimento alheio.             Entretanto, seria contraditório utilizar uma canção que representa a mobilização coletiva como justificativa para a destruição dos vínculos entre pessoas que discordam politicamente. A resistência contra a opressão não deveria produzir novas formas de opressão nas relações cotidianas.

            Em Que País É Este, da Legião Urbana, Renato Russo apresenta uma inquietação que permanece associada às contradições políticas, econômicas e sociais brasileiras. A crítica presente na composição não se esgota em uma legenda partidária, pois alcança estruturas históricas de corrupção, desigualdade e descrença institucional.            Da mesma maneira, Brasil, interpretada por Cazuza, revela uma sociedade atravessada por frustrações, promessas e contradições, na qual o sentimento de pertencimento nacional convive com a indignação diante das injustiças. Essas manifestações artísticas demonstram que a crítica política mais significativa não precisa necessariamente funcionar como propaganda de determinado agrupamento. Ela pode questionar o próprio funcionamento do poder, independentemente de quem esteja temporariamente ocupando seus espaços.

            É importante recordar também Comportamento Geral, de Gonzaguinha, cuja ironia expõe a domesticação do indivíduo diante das estruturas de poder. A música brasileira, em diferentes momentos históricos, demonstrou que o conformismo pode ser tão prejudicial quanto a própria violência institucional.

            Em O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, imortalizada na interpretação de Elis Regina, a esperança assume uma dimensão coletiva, aproximando memória, sofrimento e desejo de liberdade. A composição não transforma a dor humana em propriedade de um grupo político. Pelo contrário, apresenta a necessidade de reconstruir uma sociedade capaz de acolher aqueles que foram afastados, silenciados ou impedidos de participar de sua própria história.

            Talvez seja justamente nessa capacidade de transcender a identificação partidária que resida a grandeza da música política brasileira. A arte não deveria perguntar previamente em quem o ouvinte votou para decidir se merece ser compreendida.

            Uma canção pode ser apreciada por alguém que possui convicções políticas completamente diferentes das do compositor, porque a experiência estética possui uma capacidade de atravessar fronteiras ideológicas.

             A música permite que duas pessoas, mesmo discordando profundamente sobre os caminhos da administração pública, compartilhem uma mesma melodia, uma lembrança, uma tristeza ou uma esperança. Quando isso acontece, a arte realiza algo que a política partidária frequentemente esquece: demonstra que a convivência humana não depende da uniformidade das opiniões.

            Jean-Jacques Rousseau, ao desenvolver suas reflexões sobre a vontade geral, procurou compreender os fundamentos de uma organização política orientada para o interesse coletivo. Sua contribuição permite questionar uma sociedade na qual os interesses particulares dos grupos acabam se sobrepondo à construção de uma vontade pública.

            Quando a política é reduzida à defesa incondicional de organizações partidárias, o cidadão corre o risco de esquecer que o Estado não pertence aos partidos, assim como a democracia não pertence exclusivamente aos vencedores de uma eleição.         

            Os governos passam, as lideranças desaparecem, as legendas se reorganizam, mas as consequências das decisões políticas permanecem na vida daqueles que precisam trabalhar, estudar, alimentar suas famílias e enfrentar diariamente as dificuldades de uma realidade social desigual.

            Karl Marx, por sua vez, oferece instrumentos importantes para compreender como as condições materiais interferem nas relações sociais e na formação da consciência. Não é possível discutir a polarização política brasileira sem considerar as desigualdades econômicas, a concentração de oportunidades, a precarização do trabalho e as diferentes experiências de acesso aos direitos sociais.

             Entretanto, seria igualmente superficial acreditar que todas as divergências políticas possam ser explicadas exclusivamente pela condição econômica dos indivíduos. A subjetividade humana é mais complexa do que qualquer classificação sociológica simplificada. Pessoas que compartilham dificuldades materiais podem apresentar interpretações diferentes sobre a sociedade, assim como indivíduos pertencentes a grupos economicamente privilegiados podem desenvolver posições políticas distintas. A democracia exige justamente que essa complexidade seja reconhecida, em vez de transformada em uma disputa permanente de identidades.

            Michel Foucault ajuda a compreender que o poder não se encontra somente nas grandes instituições, nos gabinetes ou nos discursos oficiais. Ele também circula nas relações cotidianas, nas práticas de vigilância, nas classificações e nos mecanismos pelos quais determinados comportamentos são considerados aceitáveis ou inaceitáveis.        

            A política partidária, quando invade as relações pessoais de maneira autoritária, pode reproduzir pequenos mecanismos de controle, nos quais o indivíduo sente a necessidade de vigiar suas palavras para não ser rejeitado por determinado grupo.

            A liberdade de expressão, nesse contexto, torna-se paradoxal: todos afirmam defendê-la, mas nem todos estão dispostos a suportar a existência de uma opinião diferente da sua. A tolerância parece funcionar apenas enquanto o outro concorda conosco.

            É necessário, portanto, estabelecer uma distinção entre convicção e fanatismo.             Ter uma posição política significa assumir responsabilidades diante da sociedade; transformar essa posição em uma verdade incontestável significa abdicar da possibilidade de aprender. O indivíduo politicamente consciente não é aquele que permanece fiel a uma liderança independentemente de seus erros, mas aquele que conserva a capacidade de questionar inclusive os representantes que ajudou a eleger. A consciência democrática exige uma espécie de coragem intelectual: a coragem de reconhecer que o adversário pode apresentar uma crítica pertinente, que o próprio grupo pode cometer injustiças e que nenhuma organização partidária possui o monopólio da honestidade, da inteligência ou da sensibilidade social.

            Nesse sentido, o pensamento de Immanuel Kant permanece especialmente provocativo. Ao defender a autonomia da razão, Kant estabelece a importância de não submeter o próprio julgamento à tutela permanente de outra pessoa. Pensar por si mesmo significa assumir a responsabilidade pelas próprias convicções, sem transformar a obediência em virtude intelectual.

            A política contemporânea necessita dessa autonomia, sobretudo em uma época na qual discursos simplificados circulam com velocidade e frequentemente encontram terreno fértil nas emoções coletivas. A opinião não deveria ser apenas uma repetição do que determinado líder afirma, assim como a indignação não deveria ser uma reação automática aos estímulos produzidos pelas disputas partidárias. Uma sociedade democrática precisa de cidadãos capazes de desconfiar inclusive das próprias certezas.

            Há, contudo, uma dimensão particularmente triste nessa polarização: o empobrecimento dos afetos. Pessoas que compartilharam décadas de amizade passam a evitar determinados assuntos; famílias deixam de conversar sobre acontecimentos cotidianos porque qualquer comentário pode desencadear uma discussão ideológica; encontros festivos transformam-se em pequenos tribunais de convicções políticas.

             O aniversário de alguém deixa de ser uma celebração da existência para se converter em um espaço de afirmação de posicionamentos. A amizade, que deveria permitir a convivência entre imperfeições, passa a exigir uma espécie de certificado ideológico. E o mais contraditório é que, muitas vezes, aqueles que defendem discursos de liberdade acabam reproduzindo comportamentos de intolerância nas relações mais próximas.

            Não se trata de defender uma falsa neutralidade diante das injustiças. Existem situações nas quais o silêncio representa cumplicidade, e existem diferenças políticas que envolvem diretamente a defesa ou a negação de direitos fundamentais.

             Não se pode exigir que alguém abandone seus princípios para preservar uma relação pessoal, tampouco confundir respeito com submissão diante de discursos discriminatórios, autoritários ou violentos. A comunhão humana não significa concordância absoluta, mas reconhecimento de limites éticos que devem proteger a dignidade de todos. O verdadeiro desafio está em distinguir a crítica necessária de uma pessoa da condenação integral de sua existência.

            É possível combater uma ideia, denunciar uma injustiça e rejeitar uma prática sem transformar automaticamente toda divergência em uma guerra pessoal.

            Talvez o Brasil precise recuperar uma dimensão mais humana de sua experiência política. Precisamos compreender que o trabalhador que vota de maneira diferente continua enfrentando dificuldades semelhantes; que a mãe que discorda de seus filhos continua desejando que eles tenham oportunidades; que o vizinho cuja opinião nos incomoda continua compartilhando as mesmas ruas, os mesmos serviços públicos e as mesmas preocupações com a realidade nacional. A vida cotidiana é muito maior do que o calendário eleitoral. A fome não pergunta em qual partido alguém votou, a doença não solicita uma declaração ideológica e a necessidade de educação não distingue a posição política dos estudantes. A realidade possui uma materialidade que frequentemente desmente os discursos inflamados daqueles que imaginam viver em permanente estado de guerra partidária.

            Albert Camus, ao refletir sobre a condição humana, a revolta e a solidariedade, oferece uma possibilidade de resistência contra os mecanismos que transformam os indivíduos em instrumentos de grandes abstrações. A humanidade não pode ser sacrificada indefinidamente em nome de um futuro prometido por qualquer ideologia.

                        Uma sociedade que pretende alcançar justiça não pode destruir, no presente, os próprios fundamentos da convivência. O pensamento de Camus nos conduz a uma questão essencial: de que adianta conquistar uma suposta vitória política se, no caminho, perdemos a capacidade de reconhecer a dor, a fragilidade e a dignidade daqueles que caminham ao nosso lado?

            A política deveria ser uma ponte entre as necessidades humanas e as possibilidades de transformação social, não um muro construído para separar pessoas que poderiam aprender umas com as outras. Os partidos são instrumentos da democracia, não proprietários da consciência coletiva. Seus representantes precisam ser avaliados por suas ações, suas responsabilidades e seus compromissos públicos, e não tratados como figuras intocáveis.

            A fidelidade mais importante de um cidadão deveria ser aquela direcionada à dignidade humana, à justiça, à liberdade, à igualdade de direitos e à preservação das condições necessárias para uma vida coletiva minimamente decente.

            No fundo, talvez a grande tragédia da polarização não seja a existência de pessoas que pensam diferentemente, mas a incapacidade de algumas delas compreenderem que a diferença não precisa significar afastamento. Uma sociedade verdadeiramente democrática não é aquela na qual,  todos repetem as mesmas palavras, mas aquela na qual as pessoas conseguem discordar sem desejar a destruição umas das outras.

            É preciso recuperar o significado de uma conversa sem transformar cada frase em uma declaração de guerra. É preciso reaprender a escutar, inclusive quando a palavra pronunciada não corresponde àquilo que gostaríamos de ouvir. É preciso compreender que a amizade não é um parlamento, que a família não é um diretório partidário e que a existência humana não pode ser permanentemente submetida à lógica dos palanques.

            Talvez, depois de tantas bandeiras levantadas, seja necessário perguntar quantas mãos foram abandonadas pelo caminho. Depois de tantos discursos sobre liberdade, quantas pessoas perderam a liberdade de conversar sem medo de serem julgadas?             Depois de tantas manifestações em nome da democracia, quantas relações foram destruídas pela incapacidade de conviver com a divergência? A política brasileira possui seus grandes problemas institucionais, econômicos e sociais, mas também enfrenta uma questão profundamente subjetiva: a necessidade de recuperar a humanidade dentro das próprias relações políticas.

            E talvez seja por isso que uma canção como Apesar de Você continue encontrando ressonância muito além de seu contexto histórico.

            Porque, no fundo, a esperança não pertence a um partido, assim como a saudade não possui ideologia e a solidariedade não deveria exigir filiação. A música permanece quando os discursos envelhecem, atravessa gerações quando as lideranças desaparecem e encontra caminhos onde as palavras políticas frequentemente constroem muros. Entre uma bandeira e um abraço, existe uma escolha que não deveria ser tão difícil: defender nossas convicções sem perder a capacidade de reconhecer o outro.

             Afinal, nenhuma vitória eleitoral será suficientemente grandiosa se, ao final da disputa, já não soubermos sentar à mesma mesa, compartilhar o pão, recordar nossas histórias e compreender que, antes de sermos adversários de qualquer projeto político, somos seres humanos dividindo uma mesma existência.

Clayton Alexandre Zocarato

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One thought on “Entre a bandeira e o abraço”

  1. O texto de Clayton Alexandre Zocarato analisa como a polarização político-partidária contemporânea no Brasil sequestrou as relações afetivas cotidianas, transformando a divergência democrática em hostilidade e tribalismo moral. Cruzando as ideias de filósofos clássicos com a MPB, o autor defende que a sociedade precisa resgatar a alteridade e a empatia, separando a ideologia da dignidade humana.

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