
Ouvindo estrelas
Seus olhos eram azuis da cor do mar. Chegou de mansinho à clínica parecia não se importar com que acontecia ao seu redor. Sem expressão no olhar, parecia distante e trazia debaixo dos braços alguma coisa enrolada a qual chamou-me a atenção e fui logo perguntando:
E – Hei! Tudo ok?
E – Qual seu nome?
R – Rômulo
E – O que traz aí?
R – A minha tela. Eu pinto!
E – Parabéns! Posso ver?
E, como se estivesse expondo um troféu , deu um sorriso e esticou a tela à frente para que eu visse. Sem ter muito conhecimento a respeito da arte, fiquei um tanto surpresa ao ver, mas a elogiei.
A pintura continha muitos traçados. As cores eram forte, ressaltando o preto e o vermelho . No centro o rosto de uma figura humana deformada. Seria precoce da minha parte fazer um pré-diagnóstico, todavia o contexto me levava a um quadro típico de uma pessoa com transtorno mental com características de esquizofrenia. Posteriormente, fui informar- me sobre o seu histórico (prontuário) e estava com a razão, provavelmente as drogas teriam danificado ainda mais a sua saúde mental. A dependência química é uma comorbidade bastante comum em pacientes com diagnósticos de esquizofrenia.
A esquizofrenia é uma doença psiquiátrica, que se caracteriza pela perda do contato com a realidade. Há vários tipos da patologia. Nas últimas décadas houve um grande avanço nos estudos da patologia. Os medicamentos para controle da doença são bastante eficazes aos assim chamados “sintomas positivos” (delírios e alucinações ).
Rômulo foi transferido de clínica, depois de um mês em decorrência do agravamento de alguns comportamentos. Ele gostava da noite enluarada e dizia “ouvir as estrelas”.
Eliana Hoenhe Pereira
eliana.hoenhe1@hotmail.com
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Natural de Nilópolis (RJ), reside em Cruzeiro/SP. Pós-graduada em Psicopedagogia, Terapia familiar. Trabalhou como psicóloga do CEMTE (Centro Educacional Municipal Terapêutico Especializado) Madre Cecília de Taubaté. Atuou como Psicóloga, coordenadora do núcleo ‘Autismo’ e, nesse universo, participou de vários cursos e congressos. Responsável técnica da clínica ‘Performance’; Escritora, poetisa e contista da ALAC (Academia de Letras e Artes de Cruzeiro). Autora dos livros: O peixinho X Editora Scortecci, 1989); Flora por que comigo? e Em paz com o passado. Projeto: Escritoras Revisionistas, representantes do Vale do Paraíba e região nos eventos literários. Tendo participado da Feira de São Bento do Sapucaí, Passa Quatro, Cruzeiro, Cachoeira Paulista e Resende. Defende a Causa no Combate à Violência contra a Mulher. É vice-presidente do CMM (Conselho Municipal dos Direitos da Mulher) Cruzeiro – SP.

