Mustafa Abdulmalek Al-Sumaidi: quando a sombra se liberta do peso do ‘Eu’

Minha sombra me deixa na calçada
e caminha sozinha
pela rua em frente a mim.
Ela escapa de dentro de mim,
dos recônditos ocultos da alma,
onde o não dito encontra uma voz
sobre minha língua.
Ela não precisa de sapatos,
nem de guarda-chuva,
nem de cigarros…
Nunca verifica os bolsos
como eu faço.
Atravessa no sinal vermelho,
indiferente aos carros que passam
ou às vitrines das lojas.
Cumprimenta as lojas
pelas quais já não ouso passar,
e sorri para os transeuntes
que conheço pelo nome.
Quando vê um rosto desconhecido
vestindo exatamente as roupas que eu visto,
desaparece atrás
de uma placa abandonada.
Retoma sua caminhada
ao perceber que
não fui eu quem a viu,
como se para sempre
estivesse fugindo do meu corpo,
cujos passos se tornaram pesados,
e somente ela conseguisse libertar-se
de um nome chamado “Eu”.
Mustafa Abdulmalek Al-Sumaidi
- Uma fuga austera - 21 de setembro de 2026
- É o destino - 25 de agosto de 2026
- The sole hymn of the world - 20 de julho de 2026
Natural de Saná, Iêmen, é poeta, haikaísta, pesquisador acadêmico e tradutor literário. Seu trabalho se concentra na interação dinâmica entre as tradições literárias árabe e inglesa. Contribue para diversas plataformas regionais e internacionais, com ênfase particular em estudos de tradução, literatura comparada e expressão poética interlinguística. Como tradutor, traduziu para o árabe a obra ‘Natureza’, de Ralph Waldo Emerson, e uma ampla seleção de poesia britânica e americana. Por outro lado, seu trabalho de tradução do árabe para o inglês apresenta coletâneas de poetas iemenitas proeminentes, além de quase uma centena de poemas clássicos e modernos selecionados, todos em fase final de preparação para publicação.



Um poema em que aquilo que parece ser apenas uma sombra ganha vida própria e começa a percorrer caminhos que o próprio sujeito já não ousa trilhar. Mas quem, afinal, está fugindo de quem? Uma leitura que reserva ao leitor a descoberta de onde termina a sombra e começa o ‘Eu’.
A poem in which what seems to be merely a shadow takes on a life of its own and begins to walk paths the speaker himself no longer dares to follow. But who, in the end, is escaping from whom? A reading that leaves the reader to discover where the shadow ends and the “I” begins.